“COMO OS ‘INTELECTUAIS’ FRANCESES ARRUINARAM O OCIDENTE: PÓS-MODERNISMO E SEU IMPACTO, EXPLICADOS”, DE HELEN PLUCKROSE

O original pode ser lido aqui.

<< O pós-modernismo representa uma ameaça não apenas à democracia liberal, mas à modernidade como um todo. Isso pode soar como uma afirmação ousada ou hiperbólica, mas a realidade é que o conjunto de ideias e valores na raiz do pós-modernismo rompeu as fronteiras da academia e ganhou grande poder cultural na sociedade ocidental. Os sintomas irracionais e identitários do pós-modernismo são facilmente reconhecíveis e muito criticados, mas o ethos sob eles não é tão bem compreendido. Isso acontece, em parte, porque pós-modernos raramente se explicam claramente, e em parte por causa das contradições e inconsistências inerentes de uma maneira de pensar que nega uma realidade estável ou a existência de um conhecimento confiável. Contudo, existem ideias consistentes nas raízes do pós-modernismo e entendê-las é essencial se desejamos nos contrapor a elas. Elas estão sob os problemas que vemos no ativismo contra a desigualdade social, minando a credibilidade da Esquerda e ameaçando nos jogar de volta a uma tribal e irracional cultura “pré-moderna”.

De maneira simplificada, o Pós-modernismo é um movimento artístico e filosófico que começou na França, nos anos 60, e produziu uma arte ainda mais confusa do que sua “teoria”. Valeu-se da arte de vanguarda e surrealista e de ideias filosóficas anteriores, particularmente as de Nietzsche e Heidegger, por seu anti-realismo e sua rejeição ao conceito de indivíduo uno e coerente. Foi uma reação ao humanismo liberal da arte moderna e dos movimentos intelectuais, o qual era visto pelos proponentes do pós-modernismo como inocentemente generalizante de uma experiência ocidental, de classe média e masculina.

Também rejeitou a filosofia que valorava ética, razão e claridade, sob as mesmas acusações. O Estruturalismo, movimento que (frequentemente com uma auto-confiança exagerada) tentou analisar a cultura humana e a psicologia segundo estruturas consistentes de relações, estava sob ataque. O Marxisno, com seu entendimento da sociedade sob a perspectiva de classe e estruturas econômicas, passou a ser visto como igualmente rígido e simplista. Sobretudo, pós-modernos atacaram a ciência e sua missão de atingir conhecimento objetivo sobre a realidade que independe das percepções humanas, a qual eles viam meramente como mais uma forma de ideologia burguesa, pressupostos ocidentais. Decididamente de esquerda, o pós-modernismo tinha um ethos tanto niilista quanto revolucionário, que ressoava com o zeitgeist ocidental do pós-guerra e pós-império. Na medida que o pós-modernismo continuava a se desenvolver e intensificar, sua fase inicial desconstrutiva, fortemente niilista, tornou-se secundária (ainda que fundamental) à sua fase revolucionária das “políticas identitárias”.

Tem sido motivo de polêmica se o pós-modernismo é ou não uma reação contra a modernidade. A era moderna é o período histórico do Humanismo renascentista, do Iluminismo, da Revolução científica e do desenvolvimento de valores liberais e dos direitos humanos; o período em que as sociedades Ocidentais gradualmente passaram a valorizar a razão e a ciência, em detrimento da fé e da superstição, como caminhos para o conheimento, e desenvolveram um conceito de pessoa como membro individual da raça humana, merecedora de direitos e liberdades, ao invés de apenas parte de vários coletivos, sujeito a hierarquias rígidas na sociedade.

A Enciclopédia Britânica diz que o pós-modernismo “é, em grande medida, uma reação contra os pressupostos filosóficos e valores do período moderno da história ocidental (especificamente, européia)”, enquanto a Enciclopédia Filosófica de Stanford discorda, afirmando que “pelo contrário, suas especificidades [da pós-modernidade] encontram-se na própria modernidade, e o pós-modernismo é uma continuação do pensamento moderno em outro modo”. Eu sugeriria que tais especificidades encontram-se em se nós enxergamos a modernidade em termos do que foi produzido ou do que foi destruído. Se virmos a essência da modernidade como o desenvolvimento da ciência e da razão, bem como do humanismo e do liberalismo universal, pós-modernos são opostos a isso. Se virmos a modernidade como a destruição de estruturas de poder, incluindo o feudalismo, a Igreja, o patriarcado, o Império, pós-modernos estão tentando continuá-la, mas seus alvos agora são a ciência, a razão, o humanismo e o liberalismo. Consequentemente, as raízes da pós-modernidade são inerentemente políticas e revolucionárias, embora de maneira destrutiva ou, como eles colocariam, desCONStrutiva.

O termo “pós-moderno” foi cunhado por Jean-François Lyotard em seu livro de 1979, A Condição Pós-moderna. Ele definiu a condição pós-moderna como “uma incredulidade perante metanarrativas”. Uma metanarrativa é uma explicação coesa e abrangente para fenômenos amplos. Religiões e outras ideologias totalizantes são metanarrativas em sua tentativa de explicar o sentido da vida ou todos os problemas da sociedade. Lyotard advogou pela sua substituição por “mininarrativas”, para obter “verdades” menores e mais pessoais. Ele abrangeu, dessa forma, o Cristianismo e o Marxismo, mas também a ciência.

Para o autor, “existe uma interconexão estrita entre o tipo de linguagem chamado ciência e os tipos chamados ética e política” (p. 8). Ao ligar a ciência e o conhecimento que ela produz ao governo e ao poder, ele rejeita sua reivindicação por objetividade. Lyotard descreve essa incrédula condição moderna como conjuntura geral e argumenta que a partir do fim do século XIX “uma erosão interna do princípio da legitimidade do conhecimento” começou a causar uma mudança no status do saber (p. 39). Na década de 1960, a resultante “dúvida” e “desmoralização” de cientistas houvera causado “um impacto no problema central da legitimidade” (p. 8). Nem uma centena de cientistas dizendo a ele que não estavam sendo desmoralizados ou sequer mais questionados do que conviria aos praticantes de um método cujos resultados são sempre provisórios e cujas hipóteses nunca sao “provadas” poderiam demovê-lo dessas ideias.

Vemos em Lyotard uma relatividade epistêmica explícita (crença em verdades ou fatos pessoais ou culturalmente específicos) e a defesa da “experiência vivida” em detrimento da evidência empírica. Vemos também a promoção de uma versão de pluralismo que privilegia as visões de grupos minoritários ao invés do consenso geral de cientistas ou da ética democrática liberal, os quais são apresentados como autoritários e dogmáticos Nisso consiste o pensamento pós-moderno.

A obra de Foucault também é centrada na linguagem e no relativismo, embora ele os tenha aplicado à história e à cultura. Ele chamou essa aproximação de “arqueologia” porque se via “descobrindo” aspectos da cultura histórica por meio de discursos registrados (falas que promovem ou assumem uma visão particular). Para o autor, a linguagem controla o que pode ser “conhecido” e em diferentes períodos e locais, diferentes sistemas de poder institucional controlam os discursos. Dessa forma, o conhecimento é um produto direto do poder. “Em qualquer cultura e em qualquer momento, há sempre uma única ‘episteme’ que define as condições de possibilidade de todo o conhecimento, seja expresso em teoria ou silencionamente aplicado na prática”. (1)

Ademais, as próprias pessoas foram socialmente construídas. “O indivíduo, com sua identidade e características, é prodto de uma relação de poder exercida sobre corpos, multiplicidades, movimentos, desejos, forças”. (2) Ele deixa quase nenhum espaço para agência individual ou autonomia. Como diria Christopher Butler, Foucault “recorre em crenças sobre o mal inerente da posição de classe, ou profissional, do indivíduo, vista como ‘discurso’, independente da moralidade da conduta individual dele ou dela”. (3) Ele represena o feudalismo medieval e a democracia liberal modera com igualmente opressores, e argumenta pela crítica e o ataque às instituições para desmascarar a “violência política que sempre se exerceu obscuramente por meio delas.” (4)

Enxergamos em Foucault a mais extrema expressão do relativismo cultural, lido através de estruturas de poder nas quais a humanidade compartilhada e a individualidade são quase inteiramente ausentes. Pessoas são, pelo contrário, construídas pela sua posição na relação com ideias culturais dominantes, seja como oprimidos ou opressores. Judith Butler bebeu das ideias de Foucault, para seu papel fundamental na teoria queer, focando na natureza culturalmente construídado gênero, bem como Edward Said, em seu papel smilar no pós-colonialismo e “Orientalismo”, e Kimberlé Crenshaw, no desenvolvimento da “interseccionalidade” e na defesa das políticas identitárias. Vemos também a equiparação da linguagem com violência e coerção e da razão e do liberalismo universal com opressão.

Foi Jacques Derrida que introduziu o conceito de “desconstrução”, e ele também defendeu o construtivismo cultural e o relativismo cultural e pessoal. Ele focou ainda mais explicitamente na linguagem. O pronunciamento mais conhecido de Derrida “Não há nada além do texto” se relaciona com sua rejeição à ideia de que palavras se referem a alguma coisa diretamente. Na verdade, “existem apenas contextos sem qualquer pólo de fixação absoluta”. (5)

Destanto, o autor de um texto não é a autoridade em se tratando de seu significado. O leitor ou ouvinte faz sua própria, igualmente válida, interpretação e cada texto “engendra infinitos novos contextos em uma absolutamente insaturável forma”. Derrida cunhou o termo “différance”, que derivou do verbo “differer”, que pode significar “postergar/adiar” ou “diferir”. Ele fez isso para indicar que não apenas o significado nunca é final, mas também é construído por diferenças, especialmente por oposições. A palavra “jovem” apenas faz sentido em sua relação com a palavra “velho; Derrida argumentou, seguindo Saussure, que o significado é construído pelo conflito entre essas oposições elementais que, para ele, sempre formam um positivo e um negativo. “Ocidente” é positivo e “oriente”, negativo. Ele insistia que “nós não estamos lidando com a coexistência pacífica de um tête-à-tête, mas, pelo contrário, com uma hierarquia violenta. Um dos dois termos governa o outro (axiologicamente, logicamente, etc), ou o domina. Para desconstruir a oposição, primeiro de tudo, é preciso subverter[1] a hierarquia em algum momento.” (6) A desconstrução, portanto, envolve a inversão dessas hierarquias percebidas, tornar “mulher” e “oriente” positivos e “homem” e “ocidente” negativos. Isso deveria ser feito ironicamente, para revelar a natueza socialmente construída e arbitrária dessas oposições em desproporcional conflito.

Vemos em Derrida mais relativismo, tanto cultural quanto epistêmico, e maiores justificações para políticas identitárias. Há uma negação explícita de que diferenças possam ser algo além de opostas entre si e, assim, uma rejeição dos valores liberais iluministas de superação das difereças e foco nos direitos humanos universais e na liberdade individual e empoderamento. Nós vemos aqui a base da “misandria irônica” e o mantra “racismo reverso não existe”, bem como a ideia de que a identidade dita o que pode ser compreendido. Vemos também uma rejeição da necessidade de clareza no discurso e na argumentação e de entender o ponto de vista do outro, evitando mal-entendidos. A intenção do falante é irrelevante. O que importa é o impacto do discurso. Isso, juntamente com as ideias Foucaultianas, subjaz a crença atual na natureza profundamente prejudicial das “microagressões” e do uso incorreto de terminologia ligada a gênero, raça ou sexualidade.

Lyotard, Foucault e Derrida são apenas três dos “pais fundadores” do pós-modenismo, mas sas ideias dividem temas comuns com outros “teóricos” influentes e foram adotadas por pós-modernistas subsequentes, que as aplicaram a uma gama cada vez mais diversa de discilinas nas ciências sociais e humanidades. Nós vimos que isso inclui uma sensibilidade intensa à linguagem no nivel da palavra, e o sentimento de que o que o falante quer dizer é menos importante do que como é recebido, não impota quão radical seja a interpretação. A humanidade dividida e a individualidade são essencialmente ilusões, e as pessoas são propagadoras ou vítimas de discursos, dependendo de sua posição social; posição essa que depende muito mais da identidade do que no engajamento individual com a sociedade. A moralidade é culturalmente relativa, tal qual a própria realidade. Evidências empíricas são suspeitas, bem como quaisquer ideias culturalmente dominantes, incluindo a ciência, a razão e o liberalismo universal. São os valores Iluministas que se mostram ingênuos, totalizantes e opressores, e há uma necessidade moral de esmagá-los. Muito mais importante é a experiência vivida, narrativas e crenças de grupos “marginalizados”, as quais são igualmente “verdadeiras”, e devem agora ser privilegiadas em detrimento dos valores iluministas para reverter uma opressora, injusta e inteiramente arbitrária construção social de realidade, moralidade e conhecimento.

O desejo de “quebrar” o status quo, que desafia abertamente os valores universais e instituições, e que luta pelos oprimidos, é absolutamente liberal em seu ethos. Se opor a ele é resolutamente conservador. Essa é a realidade histórica, mas nós estamos em um ponto único da história onde o status quo é justa e consistentemente liberal, com um liberalismo que preserva os valores da liberdade, direitos iguais e oportunidades para todos, independente de gênero, raça ou sexualidade. O resultado é uma confusão na qual liberais de longa data que desejam conservar esse tipo de status quo liberal são considerados conservadores, e aqueles desejando evitar o conservadorismo a todo custo encontram-se defendendo o irracionalismo e o não-liberalismo. Enquanto os primeiros pós-modernista, na maioria das vezesm desafiavam discurso com discurso, os ativistas motivados por suas ideis estão de tornando mais autoritários e seuguinto as ideias até sua conclusão lógica. A liberdade de fala está em jogo porque o discurso agora é perigoso. Tão perigoso que pessoas que se consideram liberais podem agora podem justificar respondê-la com violência. A necessidade de argumentar uma situação persuasivamente utilizando argumentos racionais é agora frequentemente substituida a referências à identidade e puro ódio.

A despeito de toda a evidência de que o racismo, sexismo, homofobia, transfobia e xenofobia estão em um mínimo histórico nas sociedades ocidentais, acadêmicos de esquerda e ativistas do politicamente correto mostram um pessimismo fatalista, possibilitado pelas práticas “literárias” interpretativas pós-modernas com viés de confirmação. O poder autoritário dos acadêmicos e ativistas pós-modernos parace invisível a eles próprios, enquanto aparente a todos os demais. Como Andrew Sullivan afirmou sobre a interseccionalidade:
“postula uma ortodoxia clássica pela qual toda a experiência humana é explicada – e pela qual todo discurso deve ser filtrado. … Como o Puritanismo uma vez familiar na Nova Inglaterra, a Interseccionalidade controla a linguagem e até mesmo os termos de discurso”. (7)

O pós-modernismo se tornou uma metanarrativa Lyotardiana, um sistema Foucaultiano de poder discursivo e uma hierarquia Derridariana de poder.

O problema lógico da auto-referencialidade foi apontado aos pós-modernos por filósofos, mas ainda é algo que deve ser tratado de forma mais convincente. Como Christopher Butler afirmou, “a plausibilidade da afirmação de Lyotard sobre o fim das metanarrativas no fim do Século XX depende, em última análise, de um apelo à condição cultural de uma minoria intelectual”. Em outras palavras, o apelo de Lyotard vem diretamente dos discursos ao seu redor, em sua bolha acadêmica burguesa e é, de fato, uma metanarrativa sobre a qual ele não está sequer remotamente questionador. Da mesma forma, o argumento de Foucault de que o conhecimento é historicamente contingente deve, por si só, ser historicamente contingente, e é de se perguntar por que Derrida se deu ao trabalho de explicar a infinita maleabilidade dos textos a tal ponto que poderíamos ler todo o corpo de seu trabalho e declarar, com o mesmo grau de autoridade, que aquilo tudo se trata de uma história sobre coelhinhos.

Esse não é, é claro, o único criticismo comumente presente no pós-modernismo. O problema mais evidente do relativismo cultural e epistêmico tem sido apontado por filósofos e cientistas. O filósofo David Detmer, em Desafiando o Pós-modernismo, diz:
“Considere esse exemplo, apresentado por Erazim Kohak, ‘Quando eu tento, sem sucesso, espremer uma bola de tênis em uma garrafa de vinho, eu não preciso de várias garrafas de vinho e de varias volas de têis antes de, usando os cânones da indução de Mill, chegar indutivamente à hipótese de que bolas de tênis não cabem em garrafas de vinho’… Nós estamos agora em posição de virar a mesa [sobre as reivindicações pós-modernas por relativismo cultural] e perguntar ‘se eu julgar que bolas de tênis não cabem em garrafas de vinho, você pode mostrar precisamente como é que o meu gênero, localização histórica e espacial, classe, etnia, etc., minam a objetividade desse julgamento?” (8)

Contudo, ele não encontrou pós-modernistas empenhados em explicar suas razões e descreve uma desconcertante conversa com a filósofa pós-moderna, Laurie Calhoun,
“Quando eu pude perguntar a ela se era ou não um fato que girafas são mais altas que formigas, ela respondeu que isso não é um fato, mas, na verdade, um objeto de fé religiosa em nossa cultura.”

Os físicos Alan Sokal e Jean Bricmont referem-se ao mesmo problema, na perspectiva da ciência, em Fashionable Nonsense: o abuso da ciência por intelectuais pós-modernos:
“Quem poderia agora sinceramente negar a ‘grande narrativa’ da evolução, afora alguém se agarrando a uma metanarrativa bem menos plausível como o Criacionismo? E quem gostaria de negar a verdade da física básica? A resposta seria, ‘alguns pós-modernistas’.”
E
“Existe algo muito estranho, certamente, na crença de que, ao procurarem, digamos, leis causais ou uma teoria unificadora, ou ao se perguntarem se átomos realmente obedecem às leis da mecânica quântica, as atividades dos cientistas são, de alguma forma, inerentemente ‘burguesas’ ou ‘eurocêntricas’ ou ‘masculinistas’, ou ainda ‘militaristas’.”

Quão ameaçador é o pós-modernismo à ciência? Existem, certamnte, alguns ataques externos. Nos protestos recentes contra uma palestra dada por Charles Murray em Middleburry, os protestantes cantaram, como um só,
“A ciência sempre foi usada para legitimar racismo, sexismo, classismo, transfobia, capacitismo e homofobia, todos velados como racionais e factuais e apoiados pelo governo e o estado. No mundo de hoje, existe muito pouco que é ‘fato’ real.”(9)

Quando os organizadores da Marcha pela Ciência twittaram:
“a colonização, o racismo, a imigração, os direitos dos nativos, o sexismo, o capacitismo, queer, trans, intersexfobia e justiça econômica são assuntos científicos” (10) muitos cientistas imediatamente criticaram essa politização da ciência e essa perda do foco na preservação da ciência para a ideologia interseccional. Na África do Sul, o movimento estudantil progressista #ScienceMustFall [Ciência deve cair] e #DecolonizeScience [descolonizem a ciência] anunciou que a ciência é apenas uma maneira de conhecer que as pessoas foram ensinadas a aceitar. Eles sugeriram a magia como alternativa. (11)

A despeito disso, a ciência como metodologia está pra ficar. Não pode ser “adaptada” para incluir relativsmo epistemologico e “formas alternativas de conhecimento”. Ela pode, contudo, perder a confiança do público e, esse modo, perder subsídio estatal, e isso é uma ameaça que não deve ser subestimada. Além disso, em tempos onde os donos do mundo duvidam das mudanças climáticas, pais acreditam em alegações falsas de que vacinas causam autismo e pessoas se voltam para homeopáticos e naturopáticos para tentar resolver condições médicas graves, é perigoso ao nível de uma ameaça existencial prejudicar ainda mais a confiança das pessoas nas ciências empíricas.

As ciências sociais e humanidades, contudo, estão sob perigo de serem desvirtuadas. Algumas disciplinas dentro das ciências sociais já foram. Antropologia cultural, sociologia, estudos culturais e estudos de gênero, por exemplo, sucumbiram quase inteiramente não apenas ao relativismo moral, mas ao relativismo epistêmico. Literatura Inglesa também, em minha experiência, está ensinando uma ortodoxia profundamente pós-moderna. A filosofia, como vimos, está dividida. Bem como a história.

Historiadores empiricistas são frequenteente criticados pelos pós-modernos entre nós por alegarem saber o que realmente aconteceu no passado. Christopher Butler recoda a acusação de Diane Purkiss de que Keith Thomass estava popiciando um mito que castigava a identidade histórica masculina em “the powerlessness and speechlessness of women” [a opressão e o silenciamento das mulheres], onde ele deu evidências de que mulheres acusadas de bruxaria eram frequentemente pedintes vulneráveis.
Ao que tudo indica, ele deveria ter dito, contra as evidências, que elas eram mulheres ricas ou, melhor ainda, homens. Como disse Butler,
“Parece que, enquanto as afirmações empíricas de Thomas aqui simplesmente acabaram com o princípio organizador rival de Purkiss para a narrativa histórica – que elas deveriam ser usadas para apoiar as noções contemporâneas de empoderamento feminino” (p. 36)

Eu me deparei com o mesmo problema quando tentei escrever sobre raça e gênero na virada do século XVII. Argumentara que a audiência shakesperiana não teria achado a atração de Desdemona a um Othello negro, que era Cristão e soldado de Veneza, tão estranha de entender porque o preconceito contra a cor da pele não se tornara tão predominante até um tempo depois no século XVII, quando a compra e venda de escravos no atlântico ganhou força, e as diferenças religiosas e nacionais eram muito mais profundas antes disso. Um professor eminente me falou que isso era problemático e perguntou como as comunidades negras na América contemporânea se sentiriam em relação à minha afirmação. Se os afro-americanos [2] de hoje se sentissem mal em relação a isso, ele quis dizer, ou o que eu disse não era verdade no século XVII, ou é moralmente errado mencioná-lo. Como Christopher Butler afirmou,
“O pensamento pós-moderno vê a cultura como possuidora de histórias em perpétua competição, cuja efetividade depende não tanto em um apelo a um padrão de julgamento independente quanto ao apelo que exercem sobre as comunidades em que circulam.”

Eu temo pelo futuro das humanidades.

Os perigos do pós-modernismo não estão limitados aos bolsos da sociedade que se voltam para a academia e a Justiça Social, contudo. Ideias relativistas, sensibilidade à linguagem e foco na identidade em detrimento da humanidade ou individualidade ganharam dominância na sociedade em geral. É muito mais fácil dizer o que você sente do que rigorosamente examinar evidências. A liberdade para “interpretar” a realidade de acordo com seus próprios valores se alimenta da própria tendência humana ao viés de confirmação e ao raciocínio tendencioso.

Ficou fácil de notar que a extrema-direita agora está se utilizando das políticas identitárias e do relativismo epistêmico de maneira bastante similar que a esquerda pós-moderna. É claro que elementos da extrema-direita sempre foram divisivos nos terrenos de raça, gêero e sexualidade, e se inclinam a visões irracionais e anti-científicas, mas o pós-modernismo produziu uma cultura mais abertamente receptiva a isso. Kenan Malik descreve essa mudança:
“Quando eu sugeri, anteriormente, que a ideia de ‘fatos alternativos’ faz uso de ‘um conjunto de conceitos que, em décadas recentes, tem sido usado por radicais’, eu não estava sugerindo que Kellyanne Conway, ou Steve Bannon, menos ainda Donnald Trump, estivessem lendo Foucault ou Baudrillard… Eu quis dizer que partes da academia e da esquerda ajudaram, nas últimas décadas, a criar uma cultura em que visões relativisadas de fatos e do conhecimento parecem nada problemáticas, e, dessa forma, ficou mais fácil para a direita reacionária não apenas se reapropriar, mas também promover ideias reacionárias.” (12)

Esse “conjunto de conceitos” ameaça nos levar de volta a um tempo antes do Iluminismo, onde a “razão” era vista não apenas como inferior a fé, mas como pecado. James K. A. Smith, teólogo Reformado e professor de filosofia, foi rápido em perceber as vantagens para o Cristianismo, e enxerga o pós-modernismo como “um vento fresco do Espírito enviado para revitalizar os ossos secos da igreja” (p. 18). Em “Quem tem medo do Pós-modernismo?: levando Derrida, Lyotard e Foucault para a Igreja”, ele diz
“Um engajamento sério com o pós-modernismo nos encorajará a olhar para trás. Nós veremos que muito do que acontece sob o estandarte da filosofia pós-moderna tem um olho em fontes anciãs e medievais, e constitui resgate significante das maneiras pré-modernas de saber, de ser e fazer” (p. 25)
E
“O pós-modernismo pode ser um catalizador para a igreja reclamar sua fé nao como um sistema de verdades ditado por uma razão neutra, mas, pelo contrário, como uma história que requer ‘olhos para ver e ouvidos para ouvir’.” (p. 125)

Nós, da esquerda, devemos ficar bastante temerosos com o que o “nosso lado” produziu. Obviamente, nem todo problema da sociedade hoje em dia é culpa do pensamento pós-moderno, e não é producente afirmar que o seja. O crescimento do populismo e do nacionalismo nos EUA e pela Europa é devido a existência de uma forte extrema-direita e ao medo do Islamismo produzido pela crise dos refugiados. Assumir uma postura rígida “anti-politicamente correto”, culpando esse elemento da esquerda por tudo é, por si só, um completo pensamento tendencioso com viés de confirmação. A Esquerda não é responsável pelo nacionalismo da extrema-direita, ou da direita religiosa ou pelo nacionalismo secular, mas é responsável por não se dedicar a questões importantes de maneira razoáveis e, desse modo, ter tornado a si mesma mais difícil de ser apoiada por pessoas razoáveis. A esquerda é responsável por sua própria fragmentação, demandas de pureza e divisões que fazem até mesmo a extrema-direita parecer relativamente coerente e coesa.

Para ganhar credibilidade, a Esquerda precisa recuperar um liberalismo forte, coerente e razoável. Para tanto, pecisamos nos afastar da esquerda pós-moderna. Precisamos combater suas oposições, divisões e hierarquias com princípios universais de liberdade, igualdade e justiça. Devem existir princípios liberais consistentes em oposição a todas as tentativas de classificar as pessoas por raça, gênero ou sexualidade. Nós devemos lidar com questões de imigração, globlismo e políticas identitárias autoritárias, que atualmente estão empoderando a extrema-direita, não chamando pessoas que expressam suas opiniões de “racistas”, “sexistas” ou “homofóbicas” e acusando-as de querer cometer violência verbal. Nós podemos fazer isso ao mesmo tempo que continuamos nos opondo a frações autoritárias da direita que realmente são racistas, sexistas e homofóbicas, mas vêm podendo se esconder por trás de uma fachada de oposição razoável à esquerda pós-moderna.

Nosa crise atual não se trata de Esquerda versus Direita, mas de consistência, razão, humildade e libralismo universal contra inconsistência, irracionalismo, certeza arrogante e autoritarismo tribal. O futuro da liberdade, equidade e justiça parece igualmente sombrio seja a esquerda pós-moderna, seja a direita pós-verdade a vencer a guerra em curso. Aqueles de nós que valorizam a democraca liberal e os frutos do Iluminismo e da Revolução Científica e a modernidade, per se, devem buscar uma opção mais viável.

 

N.T.:
[1] No quote, do qual eu traduzi o termo, o original está “overturn”. Esse termo pode significar, no contexto, tanto SUBVERTER, ou inverter, quanto DERRUBAR, revogar. Como não li esse texto do Derrida, não sei a qual sentido do termo ele estava se referindo. Portanto, optei por traduzir seguindo a lógica de interpretação do autor deste artigo, que seria a de inversão.
[2] O autor usou o termo “African Americans”.

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“COMO OS ‘INTELECTUAIS’ FRANCESES ARRUINARAM O OCIDENTE: PÓS-MODERNISMO E SEU IMPACTO, EXPLICADOS”, DE HELEN PLUCKROSE

“Por que a china é um país socialista – a teoria chinesa é alinhada a Marx (mas não a Stalin)”, de John Ross.

O original está aqui.

<< Deng Xiaoping é famoso pelo dizer “não importa se um gato é branco ou preto, contanto que ele cace ratos”. Sendo eu um Xiaopinguista confesso, em teoria econômica o equivalente disso é que é perfeitamente possível compreender a economia chinesa em termos de teoria econômica ocidental ou teoria econômica marxista – uma análise em termos de ambas está presente neste site, “Deng Xiaoping e John Maynard Keynes“.

Isso reflete o fato de que a economia estuda uma realidade material e que analisar factualmente de modo acurado é sua preocupação mais importante. Por esse motivo, muitos artigos neste site [Learning from China, o site original do artigo], e outros que eu escrevo, não se preocupam em referenciar quaisquer economistas, que apenas estudam os fatos – o que significa que eles não se incomodam em discutir se o gato é branco ou preto, eles apenas focam em pegar ratos.

Mas posts neste website criaram alguma discussão entre leitores de uma visão socialista que crê no mito de que a China possua economia capitalista. Esse é o equívoco que constantemente leva analistas ocidentais a cometer erros fundamentais acerca da dinâmica da economia chinesa – exemplos típicos desses erros, constantemente atualizados, estão compilados neste website no link “Análises equivocadas sobre a China – Listadas por autor e data“.

Esse erro surge entre esses socialistas porque eles têm uma definição de socialismo que deriva de Stalin, ao invés de Marx – como será demonstrado abaixo. Para esclarecer as questões para eles, esse artigo é, portanto, um breve delineamento das bases fundamentais das teorias econômicas chinesas e do porquê elas estão alinhadas com Marx. Aqueles que preferem se utilizar de categorias ocidentais podem analisar a economia socialista Chinesa nesses termos – como esboçado em “Deng Xiaoping e John Maynard Keynes” – e não se dar ao trabalho de ler este artigo. Os que preferem ter análises econômicas mais precisas, não estando excessivamente preocupados com qual estrutura eles estão inseridos, podem ignorar se o gato é preto ou branco e apenas estudar a economia chinesa.

A TEORIA ECONÔMICA CHINESA

Deng Xiaopin, como comunista, explicitamente formulou a política econômica chinesa em termos marxistas – as políticas da reforma econômica chinesa eram vistas como a integração do marxismo com as condições específicas na China. Mais precisamente, Deng declarou: “Nós fomos vitoriosos na revolução Chinesa precisamente porque aplicamos os princípios universais do Marxismo-Leninismo às nossas realidades” (Deng, 28/08/1985). Consequentemente: “nosso princípio é de que devemos integrar o Marxismo com a prática Chinesa e abrir nosso próprio caminho. Isso é o que chamamos de construir um socialismo com características Chinesas” (Deng, 21/08/1985)

Autores, incluindo Hsu (1991), alegaram que as políticas de Deng não estavam de acordo com as de Marx. Contudo, embora a política econômica chinesa se diferisse claramente da soviética após a adoção do Primeiro Plano Quinquenal, em 1929, que introduziu planejamento compreensivo e, essencialmente, total controle do estado, está claro que as políticas da China estavam alinhadas com aquelas indicadas por Marx. Compreender a política econômica chinesa em termos ocidentais ou marxistas será uma escolha de quem estiver analisando. O que é mais crucial não é a cor do gato, mas se ele caça ratos – ou seja, as conclusões políticas práticas estabelecidas. Esse apêndice, portanto, mostra brevemente que os conceitos de Xiaoping, ao lançar a reforma econômica chinesa em 1978, correspondiam aos de Marx.

O ESTÁGIO PRIMÁRIO DO SOCIALISMO

Considerando as políticas da reforma econômica chinesa, Deng notou, como já afirmado em termos marxistas, que a china estava no estágio socialista, e não no (mais avançado) estágio comunista de desenvolvimento. Desenvolvimento em larga escala das forças produtivas/produção era um pré-requisito para que a China pudesse fazer a transição para uma sociedade comunista: “uma sociedade comunista é aquela e que não há exploração do homem pelo homem, há grande abundância material, e é aplicado o princípio ‘de cada um de acordo com as suas habilidades, a cada um de acordo com suas necessidades’. É impossível aplicar esse princípio sem uma riqueza material impressionante. Para colocarmos em prática o Comunismo, temos que cumprir as tarefas definidas no estágio socialista. São muitas, mas a fundamental é desenvolver as forças produtivas” (Deng, 28/08/1985)

Mais precisamente, em uma caracterização mantida até o presente, a China estava no “estágio primário” do socialismo, que foi fundamental na definição política: “O XIII Congress do Partido Nacional explicará em qual estágio a China está: o estágio primário do Socialismo. Socialismo, per se, é o primeiro estágio do comunismo, e aqui na China nós ainda estamos no prmeiro estágio do socialismo – ou seja, o estágio subdesenvolvido. Em tudo o que fizermos, devemos proceder dessa realidade, e o planejamento geral deve ser consistente com isso” (Deng, 29/08/1987)

A ANÁLISE DE MARX

Está claro que Marx previu que a transição do capitalismo para o comunismo eria prolongada, pontuando n’O Manifesto Comunista: “O proletariado usará sua supremacia política para obter, gradualmente, todo o capital da burguesia, para centralizar os meios de produção nas mãos do Estado, i.e., do proletariado organizado como classe dominante; e para aumentar o total das foças produtivas o mais rapidamente possível” (Marx & Engels, 1848, p. 504)

Destaque-se o “gradualmente” – Marx, dessa forma, anteviu claramente um período no qual o Estado seria dono das propriedades e a propriedade privada existiria. O sistema chinês, depois de Deng, de coexistência de setores de controle estatal e outros de controle privado está, dessa forma, claramente mais alinhado com a conceitualização de Marx do que a introdução “tudo de uma vez” feita por Stalin, de essencialmente 100% de controle estatal em 1929.

Observando as formulações de Deng sobre a sociedade comunista regulada “para cada um de acordo com suas necessidades” contra o estágio primário do capitalismo regulado “para cada de acordo com seu trabalho, Marx observou, na Crítica do Programa de Gotha, sobre a transição pós-capitalista para uma sociedade comunista: “Com o que nós estamos lidando aqui é uma sociedade comunista, não como se desenvolveu em suas próprias bases, mas, pelo contrário, da maneira que emerge da sociedade capitalista, estando, consequentemente, em todos os aspectos, econômica, moral e intelectualmente, ainda estampada com as marcas de nascença da velha sociedade de cujo seio ela emerge” (Marx, 1875, p. 85)

Em uma transição como tal, Marx destacou que, nessa sociedade, pagamento e distribuição de produtos e serviços necessariamente deveriam ser “de acordo com o trabalho”, mesmo dentro de setores estatais da economia: “convenientemente, o produtor individual recebe da sociedade – após deduções terem sido feitas – exatamente o que ele provém a ela. O que ele forneceu foi sua quantia individual de trabalho. Por exemplo, o dia de trabalho social consiste na soma das horas individuais de trabalho; o tempo de trabalho individual do produtor individual é a parte do dia de trabalho social com o qual ele contribuiu, sua participação. Ele recebe um certificado da sociedade de que ele forneceu, assim ou assado, uma quantidade de trabalho (após deduzir seu trabalho dos recursos públicos); com esse certificado, ele recebe do estoque social dos meios de consumo tanto quanto aquela quantidade de trabalho custar. A mesma quantidade de trabalho que ele deu à sociedade de uma forma, ele recebe de volta de outra.

“Aqui, obviamente, o mesmo princípio prevalece regulando a troca de mercadorias, enquanto tratar-se de uma troca de valores iguais… quando a distribuição dos últimos entre os produtores individuais estiver em discussão, o mesmo princípio da troca de produtos equivalentes prevalece: uma dada quantidade de trabalho em uma forma é trocada por uma quantidade igual de trabalho em outra forma.

“Consequentemente, o direito igualitário ainda está presente, em princípio – direito burguês… O direito dos produtores é proporcional ao trabalho que eles fornecem; a igualdade consiste no fato de que a medida é feita com igual padrão, o trabalho” (Marx, 1875, p. 86)

Em tal sociedade, a desigualdade necessariamente existiria: “um… é fisica ou mentalmente superior a outro, então provém mais trabalho no mesmo tempo, ou pode trabalhar por um tempo maior; e o trabalho, para servir de medida, deve ser definido por sua duração ou intensidade, outrossim ele deixa de ser um padrão de medida. Esse direito igual é um direito desigual para trabalhos desiguais… ele tacitamente reconhece os dotes individuais desiguais e, assim, a capacidade produtiva dos trabalhadores como privilégios naturais. É, portanto, um direto da desigualdade em seu conteúdo, assim como todo direito. O direito, por sua própria natureza, pode consistir apenas na aplicação de um padrão igualitário; mas indivíduos desiguais (e eles não seriam indivíduos diferentes se não o fossem) são mensuráveis por um padrão igualitário apenas na medida em que eles forem sujeitos a um critério igualitário, são tomados apenas por um certo lado, por exemplo, neste caso, enxergados apenas como trabalhadores e nada mais é visto neles, tudo mais é ignorado. Por outro lado, um trabalhador é casado, outro não; um tem mais filhos que outro, etc, etc… Assim, sendo feita uma quantidade de trabalho igual, e consequentemente uma fração igual fundo de consumo social, um vai, de fato, receber mais que outro, um será mais rico que outro, e assim por diante. Para evitar esses defeitos, o direito teria de ser desigual ao invés de igual”. (Marx, 1875, pp. 86-87).

Marx considerava que apenas após uma prolongada transição o pagamento de acordo com o trabalho seria substituído com o objetivo último desejado, distribuição dos produtos de acordo com as necessidades dos membros da sociedade.

“O direito nunca pode estar acima da estrutura social e seu desenvolvimento cultural que ele determina.

“Em uma fase mais avançada da sociedade comunista… após as forças produtivas terem também crescido com o desenvolvimento dos indivíduos por todos os lados, e todas as fontes de riqueza comum fluído mais abundantemente – apenas então o estreito horizonte do direito burguês pode ser transposto em sua totalidade e a sociedade inserida em sua máxima: de cada um segundo suas habilidades, a cada um de acordo com suas necessidades!” (Marx, 1875, p. 87)

Está, desse modo, claro que as políticas pós-Deng na china estavam mais alinhadas com as prescrições de Marx do que as políticas de Stalin pós-1929 na URSS. Dado que o controle essencialmente estatal da indústria chinesa em 1978, “Zhuada Fangxiao” (mantenha o grande, deixe ir o pequeno) – mantendo as grandes empresas no setor estatal e liberando as pequenas para o setor não-estatal, juntamente com a criação de um novo setor privado, possibilitou uma nova estrutura econômica claramente mais alinhada com o que foi contemplado por Marx do que o controle essencialmente estatal na URSS após 1929.

A insistência de Deng na fórmula de que no período transicional o pagamento deveria ser “de acordo com o trabalho”, e não “de acordo com a necessidade”, estava claramente alinhada com as análises de Marx. É notável que na própria URSS diversos economistas se opuseram às políticas de Stalin pós-1929 nos mesmos assuntos ou relacionados – incluindo Buhkarin (1925), Kondratiev (n.d.) e Preobrazhensky (1921-27). Suas palavras ficaram, contudo, praticamente desconhecidas, na medida que esses assuntos foram “resolvidos” por Stalin, através do assassinato desses economistas que discordavam dele e do banimento de suas obras, embora vários relatos tenham sido publicados fora da URSS – veja, por exemplo, Jasny (1972), Lewin (1975). Os debates econômicos da china, por consequência, estavam precedidos primariamente com referência a condições chinesas e Marx, e não a quaisquer debates antecedentes na URSS.

Está, dessarte, claro que a política econômica chinesa pós-reforma é alinhada com a análise socialista de Marx e que, como expresso nas análises chinesas, a política soviética pós-1929 afastava-se das análises de Marx – o argumento de que o oposto seria verdadeiro, feito por Hsu e outros, é inválido.

A teoria econômica chinesa certamente se difere da de Stalin – porque retorna a Marx.

REFERÊNCIAS

Bukharin, N. (1925). ‘Critique de la plate-forme économique de l’opposition’. In L. Trotsky, E. Préobrajensky, N. Boukharine, Lapidus, & Osttrovitianov, Le Débat Soviétique Sur La Loi de La Valeur (1972 ed., pp. 201-240). Paris: Maspero.

Deng, X. (2 June 1978). ‘Speech at the all-army conference on political work’. In X. Deng, Selected Works of Deng Xiaoping 1975-1982 (2001 ed., pp. 127-140). Honolulu: University Press of the Pacific.

Deng, X. (21 August 1985). ‘Two kinds of comments about China’s reform’. In X. Deng, Selected Works of Deng Xiaoping 1982-1992 (1994 ed., pp. 138-9). Foreign Languages Press.

Deng, X. (28 August 1985). ‘Reform is the only way for China to develop its productive forces’. In X. Deng, Selected Works of Deng Xiaoping 1982-1992 (pp. 140-143). Beijing: Foreign Languages Press.

Hsu, R. C. (1991). Economic Theories in China 1979-1988. Cambridge and New York: Cambridge University Press.

Deng, X. (29 August 1987). ‘In everything we do we must proceed from the realities of the primary stage of socialism’. In X. Deng, Selected Works of Deng Xiaoping 1982-1992 (pp. 247-8). Beijing: Foreign Languages Press.

Jasny, N. (1972). Soviet Economists of the Twenties. Cambridge: Cambridge University Press.

Kondratiev, N. D. (n.d.). The Works of Nikolai D Kondratiev (1998 ed.). (N. Makasheva, W. J. Samuels, V. Barnett, Eds., & S. S. Williams, Trans.) Pickering and Chatto.

Lewin, M. (1975). Political Undercurrents in Soviet Economic Debates. London: Pluto Press.

Marx, K. (1867). Capital Vol.1 (1988 ed.). (B. Fowkes, Trans.) Harmondsworth: Penguin.

Marx, K. (1875). ‘Marginal notes on the programme of the German Workers Party’. In K. Marx, Karl Marx Frederich Engels Collected Works (1989 ed., Vol. 24, pp. 81-99). London: Lawrence and Wishart.

Marx, K., & Engels, F. (1848). ‘Manifesto of the Communist Party’. In K. Marx, & F. Engels, Collected Works (1976 ed., Vol. 7, pp. 476-519). London, UK: Lawrence and Wishart.

Preobrazhensky, E. (1921-27). The Crisis of Soviet Industrialization (1980 ed.). (D. A. Filzer, Ed.) London: MacMillan.

Xinhua. (2010, September 24). ‘Premier Wen expounds ‘real China’ at UN debate’. Retrieved February 2, 2012, from China Daily: http://www.chinadaily.com.cn/china/2010WenUN/2010-09/24/content_11340091.htm

Xinhua. (2011, July 1). ‘China still largest developing country: Hu’. Retrieved February 2, 2012, from China Daily: http://www2.chinadaily.com.cn/china/cpc2011/2011-07/01/content_12817816.htm >>

John Ross é membro Sênior do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros, da Universidade de Renmin (China).

“Por que a china é um país socialista – a teoria chinesa é alinhada a Marx (mas não a Stalin)”, de John Ross.

“Classe é mais interseccional que a Interseccionalidade”, do blog Imperium ad Infinitum

O original pode ser lido aqui.

<< A Esquerda, como existe atualmente, está extremamente moralizada e vive num clima de culpa permanente, frequentemente envergonhada e apologética por sua orientação à luta de classes. Como resultado disso, até mesmo organizações socialistas acabam trabalhando em causas com foco único e questões de opressão a grupos específicos, não apenas com igual ênfase, mas dotando-as de maior importância do que um foco na luta de classes. Tais práticas e sentimentos precisam ser expurgados. É preciso deixar inequivocamente claro de que se trata de uma traição não apenas à classe trabalhadora, mas aos próprios oprimidos, porque uma abordagem que tende a dar maior ênfase à luta de classes é, na verdade, mais interseccional do que uma que dá mais atenção a opressões específicas do que à classe.

Uma cacetada sarcástica e necessária à defesa dos Democratas foi feita por Ross Wolfe no The Charnel House:

“Mas o meu time colorido de identidades marginalizadas vai destruir o kyriarcado enquanto nós borrifamos areia de diversidade mágica de duendes em todo mundo e criamos uma brilhante utopia liberal Starbucks.

Liberais de esquerda ditos ‘progressistas’ fizeram isso com eles mesmos. Isso é exatamente o que se voltar para politicas culturais (i.e., identitárias), abandonando classe como base para uma aliança socialmente transformadora, faz de você.”

O principal problema na vida de qualquer grupo oprimido (ou, como deveríamos reaprender a dizer, qualquer grupo duplamente oprimido, levando em conta que a classe trabalhadora inteira é oprimida), na verdade, dificilmente tomará a forma da opressão peculiar àquele grupo específico.

O principal problema na vida de qualquer grupo duplamente oprimido é, normalmente, “como eu vou fazer pra comer hoje?” Isso não é apenas especulação, mas está apoiado por dados eleitorais. [1]

É verdade que diariamente, por exemplo, todas as pessoas negras lidam com a possibilidade de violência policial. É também verdade, contudo, que todos os dias, todas as pessoas negras lidam com o obstáculo inegável de ter que conseguir dinheiro para comer, pagar o aluguel, despesas médicas, mobilidade, etc. Isso se extende, de várias formas, por várias analogias, às mulheres, à comunidade LGBT, imigrantes e todos os grupos oprimidos.

Pode soar insensível dizer que o principal problema com o qual a maioria das mulheres lidam não é o sexismo. Obviamente, sexismo é um grande problema e não é como se ele não devesse ser combatido. Mas na verdade é mais interseccional, mais feminista, combater o problema que é maior do que o sexismo para a maioria das mulheres. O maior, mais imediato problema de vida-ou-norte com o qual a maioria das mulheres lida é a economia, o dinheiro, o padrão de vida, o capitalismo. Claso que é até difícil separar o capitalismo do sexismo, dado que a forma como o capitalismo opera é tão sexista que a distribuição do dinheiro pode ser literalmente quantificada como sexista, na forma do salário desigual. Ainda assim, os problemas mais graves que atingem a maioria das mulheres são os mesmos problemas que atingem a maioria dos homens: será que eu vou comer hoje? Como vou fazer pra pagar o aluguel? Eu tenho emprego? Como vou conseguir arrumar um? Assistência à saúde? Como vou pagar as despesas das crianças ou prevenir a gravidez?

Isso não quer dizer que demandas de grupos específicos não devam surgir. Isso quer dizer que a Esquerda deveria mudar sua ênfase e mensagem principal em direção a uma imitação maior do sucesso obtido pelo eixo na ênfase à luta de classes e demandas econômicas desenvolvido pela campanha de Sanders e pela conselheira de Seattle, a socialista Kshama Sawant [2]. Não é uma questão de “preto-e-branco”: levante demandas, ou nunca as crie. Tem a ver com frequência e proporção – quanto você vai levantá-las, quanto tempo e espaço e foco você dá a elas?, uma questão de equilíbrio [3].

A mensagem de uma aliança verdadeiramente interseccional seria colocar a ênfase primária na luta de classes e nas demandas econômicas, enquanto levantava demandas de grupos específicos, exatamente no sentido de refletir o fato de que problemas econômicos são os problemas primários e maiores de qualquer grupo duplamente oprimido, e que, de fato, problemas econômicos até mesmo afetam de maneira mais intensa do que o resto da classe trabalhadora em geral. Há também uma diferença contextual de como e onde essas demandas devem ser trazidas à tona – ao invés travar um arco-íris de um milhão de campanhas pontuais, a Esquerda deve focar seus esforços na luta de classes e lutar pela diversidade, inclusão, tolerância, e contra a discriminação no contexto do trabalho, etc, e aí voltar a tentar afetar as leis num nível político/nacional, uma vez que tenhamos construído uma base proletária que tenha um real impacto sobre elas.

O que eu estou tentando fazer é rejeitar uma interseccionalidade super-especializada e sem consciência de classe que não demonstra interesse em construir uma unidade em torno da classe, ou ter habilidade de trabalhar com pessoas comuns. Para quem essa interseccionalidade está realmente voltada? Ela se volta para as elites acadêmicas de classe média dos grupos oprimidos, como muitas vezes foi sugerido? De fato, eu acho que a realidade é ainda pior. Na verdade, eu acho que essa “interseccionalidade” não-proletária (será que é realmente uma forma de interseccionalidade, se não inclue as massas trabalhadoras?) está, na verdade, voltada para a classe média-alta acadêmica e ONGS, e, dessa forma, ao invés de ser um tipo de projeto liberal burgês (embora algumas vezes possa sê-lo), é, na verdade, principalmente adotada por um cenário branco, às vezes masculino, de classe média alta. Obviamente, essa “interseccionalidade” não está voltada para as massas trabalhadoras (e não-trabalhadoras) de grupos duplamente oprimidos, que podem também existir fora desse mundinho de inférteis disputas intra-Esquerda e podem literalmente jamais ter ouvido a palavra “interseccionalidade” em suas vidas.

Indo contra as expectativas de ativistas moralistas, as pessoas que focam nas demandas de econômicas ou de classe podem desenvolver uma relação com as pessoas e as comunidades de grupos duplamente oprimidos muito mais próxima do que os ativistas que focam em demandas específicas às essas ecomunidades jamais farão.

Se os problemas econômicos são os problemas diários mais urgentes de grupos duplamente oprimidos, é evidente que as pessoas que estão direcionando seus esforços às demandas econômicas, ao movimento trabalhista ou socialista, têm, na realidade, como objetivo implicido os membros de movimentos de mulheres, movimentos negros, movimento LGBT, a luta dos imigrantes e possivelmente outros, a despeito de terem percebido isso ou não, independente de terem levantado demandas explícitas em relação a esses grupos ou sequer pensado nesses grupos. A conexão é material, ao invés de intencional.

Porque eu estou argumentando em prol de alco que soa como reducionismo de classe? Afinal, na minha perspectiva, você poderia, em teoria, não trazer demandas que concernem a grupos “minoritários” e mesmo assim parecer alguém muito interseccional. Porque atualmente na Esquerda a insistência na falida agenda arco-íris, na superestima de demandas “minoritárias” e na total ignância e abandono da economia e das demandas de classe está tão forte que nós teríamos que literalmente defender algo que parece (mas só parece, não é) reducionismo de classe, para apenas resultar em um acordo resultante em uma ênfase meio-a-meio. O campo de atuação está totalmente desbalanceado e injusto devido às políticas identitárias que eu teria que ser “injusto” na direção contrária para balancear isso. O mais engraçado é que meu argumentos são verdadeiros e justos, e que a ênfase na classe é, na verdade, mais interseccional que as demandas de grupos específicos.

Se a “interseccionalidade” é principalmente uma desculpa para jogar os Outros, os “não-oprimidos” debaixo do ônibus toda vida, para calar a participação de uma pessoa numa conversa, embora ela provavelmente pertença à classe trabalhadora, não há nada interseccional nisso. Nada está interseccionando. Ninguém está conectando. As pessoas estão brigando entre si ao invés de se unirem. Foda-se essa interseccionalidade. Trata-se de uma intersecção de anti-solidariedade, uma intersecção de todas as repetições possíveis de sectarismo, uma intersecção de todas as formas possíveis de não-intersecção. Ela é auto-contraditória em sua própria natureza e definição. Interseccionalidade, como existe hoje, é anti-interseccional.

Hillary Clinton nem sequer conseguiu atrair uma maioria de mulheres brancas [4]. Como uma estratégia vitoriosa tende mais a atrair grandes quantidades de trabalhadores que fazem parte de grupos duplamente oprimidos, ao invés de pequenas amostras de pessoas à margem desses grupos, a interseccionalidade de classe traz a ênfase de volta para a luta de classe trans-minoritária e para o fato de que a demanda econômica é mais relevante para a Esquerda contemporânea de base, ofuscando as demandas “minoritárias”. >>

[1] Dêem às pessoas o que elas querem: a candidatura de Bernie Sanders não é “problema de brancos”. https://www.jacobinmag.com/2015/06/sanders-race-primary-president-civil-rights/
[2] Na Wikipédia: “Kshama Sawant é uma política socialista, ativista e membro da Alternativa Socialista que faz parte do Conselho de Seattle”.
[3] Equilibrando identidade e classe. https://imperiumadinfinitum.wordpress.com/2016/11/11/balancing-identity-and-class/
[4] Clinton couldn’t win over white women. https://fivethirtyeight.com/features/clinton-couldnt-win-over-white-women/

“Classe é mais interseccional que a Interseccionalidade”, do blog Imperium ad Infinitum

“Revelando a hipocrisia da ‘esquerda pro-prostituição'”, de Rae Story

O original está aqui.

<< Aproximações liberais aos assuntos industriais nada fazem para ajudar a classe trabalhadora – e isso também se aplica à indústria do sexo.

Como podemos explicar o fenômeno da prostituição? Se a enxergarmos como uma forma de exploração, seria melhor descrita como de gênero ou de classe?

A posição feminista a respeito da indústria do sexo, embora nem sempre bem compreendida, é, certamente, conhecida por ser crítica, especialmente sobre suas manifestações mais tradicionais. Mas o que dizer de uma perspectiva feminista socialista?

Afinal, a constituição da indústria do sexo pode ser mais eficazmente descrita como o aluguel de mulheres migrantes, pobres e da classe trabalhadora, por homens ricos ou de algum modo materialmente confortáveis.

Embora a prostituição seja, sem dúvida, um exemplo das maneiras enraizadas que somos criadas de forma a nos desfavorecer socialmente, nessa dinâmica, isso atinge mais gravemente mulheres de origens economicamente marginalizadas.

De fato, a prostituição é um dos exemplos mais tocantes em que gênero e classe se cruzam na criação de hierarquias sociais.

Existem muitas posições políticas assumidas nos debates sobre prostituição, daqueles que desejam abolir a indústria àqueles que desejam desenvolvê-la e fazê-la crescer, enxergando-a como uma fonte legítima de criação de riquezas.

Existem também aqueles que não iriam tão longe nesse argumento, mas desejam que a prostituição seja descriminalizada, como forma de política progressista com fins de emancipar as trabalhadoras do ramo.

Argumentos sobre a pobreza que atinge as mulheres são frequentemente indispensáveis a essa posição. Se a pobreza das mulheres fosse erradicada, a indústria do sexo diminuiria, mas ao mesmo tempo seria completamente liberta, e não mais atrairia criticismos ou tabus.

Mas esse argumento, utilizado por organizações como o English Collective of Prostitutes (do qual, curiosamente, você não precisa ser prostituta para ser membro), coloca a prostituição exclusivamente sob um ponto de vista descontextualidado da pobreza, como se ela não tivesse nada a ver com gênero, opressão histórica, colonização ou exploração capitalista.

Além disso, o objetivo central desse grupo é a descriminalização da indústria (não apenas das mulheres que estão nela), muito aquém de quaisquer reformas socialistas.

Fomos enganadas para acreditar em uma descriminalização aparentemente progressista, mas que na realidade (como na Nova Zelândia) tem possibilitado o crescimento da desigualdade entre os ganhos dos exploradores da prostituição e o das próprias prostitutas, com multimilionários como os irmãos Chow tendo autorização para reivindicar 70% dos ganhos do comércio sexual em Wellington [1].

Alguém deveria dizer ao ECP e às instituições similares que qualquer política social que institua as condições que permitem a monopolização e o enriquecimento exacerbado dificilmente traz algum benefício para mulheres pobres. Ou para qualquer pessoa pobre.

Contudo, tal retórica – a qual parece perceber que mulheres são desproporcionalmente afetadas pelos cortes à seguridade social, mas não está há tempo suficiente para se perguntar o porquê – é populista e funciona para aqueles que acreditam que o seu apoio à renovação da indústria é “ok”.

A sindicalização das trabalhadoras é frequentemente defendida (embora na Alemanha, onde a prostituição é legalizada, os “sindicatos” das prostitutas tenham poucos e escassos membros), mas isso parece fundamentalmente inadequado nesse contexto.

Dizer que “nós devemos dar liberdade aos patrões para que possamos unir as trabalhadoras contra eles” soa como o líder de uma seita implorando para que você ofereça qualquer poder que possua para que possa ser libertado.

De qualquer forma, buscar a desregulamentação da indústria num contexto de crescimento de desigualdade econômica, decorrentes cortes sobre a seguridade social das mulheres e, agora, de incerteza social e econômica por conta do Brexit, mostra uma falha em diferenciar o que você gostaria que acontecesse, a princípio, (coletivos New Age de prostitutas que recebem benefícios) e o que, de fato, aconteceria.

Quando você tenta usar uma perspectiva superficialmente socialista para enxergar a indústria do sexo, você nem a compreende completamente, nem tem as melhores respostas para os seus problemas.

É por isso que defensores bem intencionados das prostitutas frequentemente se encontram alienados por uma mentalidade de liberalismo opaco, a despeito de toda a sua postura esquerdista.

É verdade que a pobreza e a desiqualdade são fatores que levam à prostituição. A maioria das mulheres pobres não se tornam prostitutas, mas a maioria das mulheres que se tornam prostitutas o fazem, pelo menos em parte, numa tentativa desesperada de fugir da mesmice da pobreza.

O quanto elas sofreram por opressões e violências relacionadas ao sexo ou à raça e o quão limitadas são suas opções de escapar à miséria são fatores atrelados a isso.

As opções que essas mulheres escolhem dentro da indústria também funcionam nesse continuum.

Em 2014, o The Economist publicou um estudo que mostrava como algumas características das mulheres são indicativas do quanto elas podem cobrar, com mulheres atléticas valendo mais que magras ou obesas, escolarizadas valendo mais que não escolarizadas e brancas valendo mais do que negras – aspectos que geram graus de variação relacionados a formas históricas e estruturais de desigualdade.

O estudo também mostrou que uma prostituta também pode cobrar mais por “serviços” mais arriscados, como sexo oral sem camisinha ou sexo com mais de um homem.

Não precisa ser um gênio para entender que mulheres mais vulneráveis devido à sua etnicidade ou nível de escolarização podem ser impulsionadas pelo mercado a se colocarem em maior risco. Mulheres não escolarizadas estavam mais propensas a atender mais homens e trabalhar por mais horas.

Muitos socialistas argumentam que o capitalismo, em sua busca sedenta por mais lucros, vai mercantilizar mais e mais aspectos da vida humana.

Sim, a prostituição tem uma história antiga, mas isso não significa que nós devemos permitir que promotores imobiliários ou donos de cassinos, que constróem bordéis após a legalização, dêem à prostituição um futuro mais sólido.

Precisamos desmascarar a hipocrisia dos que usam chavões e clichés vagamente progressistas para apoiar o crescimento da indústria, seja intencionalmente, seja por ignorância – porque o feminismo socialista se preocupa com a maioria mais vulnerável e mais explorada, não com a minoria mais rica.

Nós devemos retomar a narrativa da justiça social em relação à prostituição daqueles com objetivos volúveis, controversos ou dúbios, porque a prostituição é, certamente, um assunto feminista e socialista. >>
[1] Capital da Nova Zelândia

“Revelando a hipocrisia da ‘esquerda pro-prostituição'”, de Rae Story

“O problema Bilionário do Brasil: para entender a desigualdade mundial, você precisa entender a desigualdade no Brasil”, de Patrick Iber

<< Há pouco mais de dois anos atrás, em Abril de 2014, foi publicado em inglês o Capital no Século XXI de Thomas Piketty, que chegou ao primeiro lugar da lista de bestsellers do New York Times. O livro de Piketty foi marcante e ajudou a disseminar várias ideias – entre as quais a de que o capitalismo não necessariamente gera uma razoável ou equitativa distribuição de renda, e que prestar atenção aos 1% mais ricos é necessário para entender a política. Piketty focou na concentração de renda na França, Reino Unido e nos Estados Unidos dos séculos XIX e XX, locais onde havia mais informações disponíveis a respeito desses períodos. Mas se Piketty fosse – ao invés de um economista – um repórter trabalhando para entender o mundo que os extremos de desigualdade criaram hoje, ele não teria estudado esses países ricos. Ele teria escolhido focar no Brasil, como Alex Cuadros fez no seu novo livro Brazillionaires.

Cuadros, repórter para o Bloomberg [1], chegou no brasil em 2010 com uma missão digna de Piketty: investigar as vidas não dos 1%, mas dos 0,0001%. Parte do seu trabalho foi listar os maiores bilionários do Brasil na Lista Bloomberg de Riqueza Mundial – um tipo de ranking dos mais ricos estilo “US News and World Report” – bem como relatar suas relações de negócios e suas vidas pessoais. Em Brazillionaires, ele consolidou e configurou tais perfis em um retrato propulsor e atraente do Brasil moderno.

Cuadros usa seu retrato do falecido magnata da mídia, Roberto Marinho, por exemplo, para discutir como a mídia de massa do Brasil retrata a questão de raça, e por meio disso, suas ideias e ideologias raciais. Seu capítulo a respeito de Edir Macedo, um pregador da tradição da “prosperidade gospel”, o permite discutir a mudança das práticas religiosas. Embora cada capítulo seja construído em torno de um perfil de bilionário em particular, Cuadros inclui explicações baseadas em suas próprias leituras, além de relatos de investigações in loco. Ele visita comunidades nas favelas e viaja naqueles helicópteros de $1500-a-hora que os seus investigados usam para evitar o trânsito engarrafado. O livro pode ser mais revelador do que os próprios sujeitos gostariam. De fato, ele não estará disponível no brasil: um dos bilionários em questão não gostou do que viu nos rascunhos e as editoras foram assustadas.

O bilionário mais importante do livro é, inquestionavelmente, Eike Batista. Eike, como é conhecido, cresceu até tornar-se o 8º maior bilionário da lista Bloomberg, avaliado em mais de 30 bilhões de dólares. Ele foi bem aberto em relação às suas ambições de tornar-se o homem mais rico do mundo. Eike é um campeão em corrida de lancha, tem implantes de cabelo de última geração e foi casado com Luma de Oliveira, uma modelo da playboy e rainha de bateria. Um dos seus filhos, Thor Batista, posta seu enorme tronco definido no instagram e, até pouco tempo atrás, dirigia um SLR McLaren da Mercedes avaliado em mais de um milhão de dólares americanos. Eike e sua família dificilmente poderiam representar melhor a vida de playboy biolionário dos ultra-ricos pelo mundo.

Eike também serve como símbolo dos problemas do Brasil atual, e cerca de metade dos capítulos de Brazillionaires tratam-se dele. Apesar do que pareceria fundamentalmente diferente em perspectiva de mundo e ideologia, Eike construiu uma relação de trabalho pragmática com o governo de centro esquerda do Partido dos Trabalhadores. Até a presidenta Dilma Roussef ter sido suspensa de suas atividades por um legislativo hostil, em maio desse ano, o país vinha sendo governado pelo PT desde 2003, primeiro com o metalúrgico e dirigente sindical Luís Inácio Lula da Silva (2003 – 2011) e depois com Dilma (2001 – 2016). Antes de Lula tomasse assento na presidência, os mais ricos do Brasil estavam preocupados com o que poderia acontecer se Lula, um ex-socialista, assumisse o poder. O próprio Eike descreveu isso como um retrocesso. Mas lula estava determinado a quebrar associação entre governos de esquerda e caos econômico, e criou alianças com as oligarquias do país.

Lula abraçou um programa desenvolvimentista que Cuadros descreve como “tentando trazer a nação não tanto para o século XXI, com tecnologia e altas finanças, mas para o século XX, com portos, barragens e grandes companhias estatais de base”. Pelo fato de controlar uma gama de companhias inter-relacionadas, a maioria no setor de mineração e gás, e por ter feito grandes apostas em perfuração marítima, Eike recebeu enormes empréstimos do banco estatal brasileiro do desenvolvimento. Ele cresceu junto com Lula.

A corrupção é algo que já faz parte dos contratos de negócios e da política no brasil, e Eike, embora muitas vezes retratado como um empresário “self made” de “estilo americano”, não era, de forma alguma, exceção à regra. Ele ajudou a financiar um lisonjeiro filme biográfico sobre lula e gastou um quarto de milhão de dólar num leilão para comprar um terno que lula tinha vestido na sua posse. Mas ao invés de evidenciar a corrupção e os conflitos de interesse no sistema político, por um tempo pareceu que todo mundo estava se beneficiando. A economia do Brasil fez progressos enormes. A classe média cresceu e a qualidade de vida entre os pobres aumentou dramaticamente. A desnutrição diminuiu pela metade. Um dos programas do governo Lula, Bolsa Família, promoveu transferências diretas de dinheiro aos pobres, mediante frequência escolar das crianças. Muitos dos bilionários que Cuadros entrevistou justificaram sua riqueza com alguma versão de “o que é bom para a GM é bom para o país”. Muitos dos brasileiros consideraram a proposta aceitável: lula deixou a presidência com uma taxa de aprovação acima de 80%.

Contudo, problemas surgiram em 2013. O governo brasileiro e seus consumidores tinham contraído muitas dívidas. Os preços das mercadorias estavam caindo. A expectativa de produção dos campos de petróleo marítimo de Eike tornaram-se insuficientes para cobrir seus custos, e suas companhias começaram a decair. Seu valor estimado caiu de 30 bilhões para -1 bilhão em apenas dois anos, e ele se encontrou diante de um tribunal, acusado de insider trading [2]. Em 2012, seu filho Thor atropelou e matou, com seu McLaren de um milhão de dólares, um trabalhador que estava de bicicleta. Seus julgamentos pareceram testes de se os poderosos poderiam ser responsabilizados por suas atitudes enquanto pessoas comuns sofriam com condições deploráveis e esperanças destruídas.

Ao longo dessa história, Cuadros critica esses bilionários, mas não os denuncia. Em alguns deles, encontra qualidade admiráveis. Mas está consciente de que os mitos contados a respeito desses sujeitos e os que eles contam sobre si mesmos são profundamente prejudiciais. O mais próximo que ele chega de uma repreensão é quando pede a empregados do escritório de Jorge Paulo Lemann (que se tornou o homem mais rico do Brasil após a queda de Eike, e é dono do Burger King, da Budweiser e de parte da Heinz) que listem alguma coisa que ele tenha criado como um “empreendedor” deveria fazer. Eles não deram quaisquer exemplos, e Cuadros escreve: “uma recente apresentação para investidores da Heinz promoveu inovações que incluíam mostarda amarela e molhos picantes. É como destruição criativa, sem a parte criativa.”

Milhares de Brasileiros pobres, contudo, admiram sua riqueza, como mostra Cuadros. Muitos na classe média direcionam suas iras aos pobres. “‘Muitos de nós, como você e eu, têm que trabalhar”, disse-lhe sua dentista,

“mas tem várias pessoas que não fazem nada e vivem de sombra e água fresca’. Quando eu perguntei a ela se ela investe seu dinheiro em CDBS [3] – certificados de depósito de alto interesse – e ela disse que sim. Ela ficou surpresa quando eu apontei que esse também era um subsídio público, muito maior, levando em conta que o governo paga somas enormes para que os bancos guardem seus títulos. Eu deveria ter mencionado que três quartos dos adultos do bolsa família também trabalham para sobreviver.”

Se Cuadros tem um modo de trabalhar, pode ser descrito que ele enfatiza as contingências do cenário econômico, bem como os obstáculos para a mobilidade e o acesso, de forma que a ideia de meritocracia de torna pouco mais do que um meio de justificar extremos de desigualdade.

Essas questões – e esse tipo de conversa sobre mérito, bem-estar e distribuição de riquezas – com certeza não são exclusivas do Brasil. E se Brazillionaires é superficial a respeito do Brasil, também tenta tratar para além disso. Brasil, de muitas formas, é mais representativo do mundo do que qualquer outro país. Esteve, em décadas recentes, entre os países mais desiguais do mundo. Se você combinar todas as pessoas do mundo juntas e medir as desigualdades de riquezas, você encontra um nível de desigualdade ainda maior do que existe em qualquer país. Ainda assim, é o perfil brasileiro que se aproxima mais da situação global: uma pequena, rica e dominante alta classe, uma modesta classe média e uma maioria pobre que luta tanto por renda, quanto por direitos efetivos.

Brasil é incomum dentre os países de grade desigualdade nos quais seus cidadãos estão distribuídos por todo o espectro [de riqueza]. (Nos EUA, em contrapartida, em termos puramente monetários os pobres têm renda média, de acordo com os padrões mundiais.) O Brasil tem pessoas que são pobres como qualquer um em qualquer país, e ainda assim tem pessoas que são ricas como alguém qualquer em um país qualquer. Apenas um dos sujeitos estudados por Cuadros demonstra qualquer remorso por isso: Guilherme Leal, cofundador de uma companhia de cosméticos sustentáveis, disse a Cuadros que ficou desconfortável ao se tornar um bilionário em um país pobre. “Eu acho que as sociedades mais felizes são as menos desiguais”, disse ele, “onde todo mundo pode ter uma vida decente com qualidade de vida razoável. Se eu tivesse que abrir mão de uma quantidade razoável da minha riqueza, trinta, quarenta por cento, com o aumento de impostos, mas ao mesmo tempo pudesse viver num país menos desigual, eu seria mais feliz”.

Ainda assim, quando pediram para sua companhia pagar centenas de milhões em impostos não pagos e multas, ele disse “aqui no brasil se você não tentar lidar de forma inteligente com os encargos de impostos, você vai à falência”. Se a desigualdade do país choca a consciência, e leva a injustiças óbvias, então temos que reconhecer que, como uma comunidade humana global, nós todos somos o Brasil.

Cuadros não faz uma comparação explícita, mas deixa vestígios para uma terceira interpretação de seu livro. Até mesmo o subtítulo da edição americana: “Riqueza, poder, decadência e esperança em um país americano”, flagrantemente evita a expressão “país Latino-americano”. O ponto é que, com certeza, esses problemas não são apenas do Brasil, mas também são os dos Estados Unidos. Ambientalistas americanos podem chorar quando enormes faixas da amazônia são limpas para plantações de soja e criação de gado – os ambientalistas brasileiros também. Mas tal atividade traz ganhos a curto prazo para áreas mais pobres do país – e, como pontua Cuadros, os EUA fizeram os mesmos cálculos com fraturamento hidráulico nos últimos anos.

Ambos os países são antigas sociedades escravocratas que lutam para confrontar o legado do racismo institucionalizado e a violência que acompanha a patologização de uma pobreza racializada. Ambos são locais onde os ricos têm os meios para assegurar que seus filhos acabem prósperos e se beneficiem até mesmo de bens públicos como a educação. A corrupção institucional tem sua cultura particular no brasil, onde pode ser tanto uma frustração cotidiana quanto completamente ultrajante. (O juiz responsável pelo julgamento de Eike batista por manipulação de mercado e Insider trading apreendeu alguns de seus bens pessoais, e depois foi pego dirigindo o Porsche Cayenne do Eike.) Mas e nossa prática completamente legal de tráfico de influências, por meio da qual a experiência governamental pode ser transformada em riqueza pessoal, e corporações e os mais ricos têm maior influência sobre as decisões legislativas? A história de nossos próprios bilionários poderosos não é só de produção do valor social, mas também de trapaças, monopólios, inside dealing e violência estatal e privada contra o trabalhador. Os EUA são muito mais ricos, e sua democracia é mais antiga, mas não são tão diferentes.

Devido às olimpíadas, o Brasil agora é o centro das atenções mundiais. O fato de os jogos acontecerem durante um momento de turbulência política e recessão econômica é certamente decepcionante para os líderes do país e para muitos dos seus cidadãos. Mas as legiões de jornalistas estrangeiros caindo de para-quedas no país para visitas curtas vão, sem dúvidas, ser atraídas para o exótico: a beleza da paisagem e das pessoas, o futebol, o carnaval, as favelas e por aí vai. Brazillionaires é um lembrete de que observadores nos EUA seriam bem-servidos não apenas olhando o Brasil como um país exótico com problemas exóticos. Contemplar sua condição é ver um retrato alarmante, apenas para perceber que nosso olhar não está direcionado a uma pintura, mas a um espelho. >>

[1] Na wikipédia: “A Bloomberg L.P. é uma empresa de tecnolgia e dados para o mercado financeiro e agência de notícias operacional em todo o mundo com sede em Nova York.”
[2] “Negociação de valores mobiliários baseada no conhecimento de informações relevantes que ainda não são de conhecimento público.”
[3] “CDB significa Certificado de Depósito Bancário. Esses certificados são títulos que os bancos emitem para captar dinheiro das pessoas. Dessa forma, o banco remunera com juros, que varia de acordo com o valor emprestado, a quem emprestou.”

“O problema Bilionário do Brasil: para entender a desigualdade mundial, você precisa entender a desigualdade no Brasil”, de Patrick Iber

“O mito da ‘Maria Purpurina’ e os segredos sujos da subcultura gay masculina”, de Rohln Guha

O original está aqui.

<< Nos meus vinte e poucos anos, aprendi que levar suas amigas a um bar gay é como levar um vegetariano a um açougue. Tem um monte de carne, um monte de cortes nobres, e mesmo alguma tripa, mas nada que elas possam comer. Mesmo não havendo qualquer aviso de “PROIBIDO PARA MULHERES”, a desnecessariamente longa espera pela qual elas têm que passar para comprar drinks -aguados, pra piorar – e a quantidade de olhares tortos que elas recebem dos bartenders são o suficiente para comunicar a mesma mensagem em geral. Em pouco tempo, fiquei saturado dos bares gays em geral. Minhas amizades eram, em maioria, de mulheres, e se elas não estavam sendo tratadas de forma respeitosa – e não estavam recebendo coquetéis decentes, então pra que insistir no erro?
É um segredo sujo do submundo dos homens gays a respeito das mulheres: que elas não são realmente bem-vindas, a menos que elas surjam feito uma Real Housewife [1], uma diva pop, ou uma vencedora do Tony award [2] – ou, ainda, uma “maria purpurina” assumida. Para alguém saindo do armário e esperando encontrar seu rumo na comunidade gay masculina, a atitude em relação a mulheres é simples: são apenas objetos cuja função é servir homens gays. Talvez aconteça quando homens gays se encontram muito confortáveis em seus recém-descobertos ”espaços seguros” [safespaces], onde eles dão as cartas enquanto orgulhosamente expõem seu novos eus. Ou talvez aconteça por meio do condicionamento cultural. Seja qual for a causa, torna-se claro: se não há qualquer tipo de interesse envolvido, mulheres perdem seu valor nas subculturas homossexuais masculinas.
Quando falamos sobre o privilégio de homens gays, é importante que, como homens gays, compreendamos que qualquer um de nós poderia ser – ou é – perpetuador dessa cultura. Em meus primeiros dias “fora do armários” – e entre mulheres – eu definitivamente fui esse babaca que fingia ignorância a respeito da anatomia das mulheres, que respondia com ironia quando surgia uma discussão acerca do corpo feminino; eu fui esse jovem homossexual que tinha sua coleção de divas que vestiam melhor que o resto – e as jogava contra outros homens gays. Quando esse é o seu mundo, você comete deslizes, você leva a identidade aos seus limites mais extremos – e quando isso para de fazer sentido, você acorda.
***
Eu tinha um melhor amigo de cerca de 20 anos que pegou o hábito de chamar suas amigas mais próximas de p- frequentemente. Ele costumava gritar com elas e insultar seus corpos. Quanto questionado sobre esse desrespeito, ele contornava dizendo que era humor. “Meu deus, você não aguenta uma piada?” era uma de suas desculpas favoritas. Eu disse “eu aguentava”, porque às vezes você precisa traçar uma linha entre quem você mantém em sua vida e quem você deixa de fora. Eu não aguentava mais estar cercado por esse tipo de linguagem. Porque como homens gays, nós temos que encontrar maneiras de exercer empatia com nossas amigas, não usá-las como adereços pra aumentar a nossa auto-estima. Acontece que mesmo homens gays objetificam mulheres – mas fingem que não, com a desculpa da sua orientação sexual. Rapazes, não. “Mas eu sou gay!” não pode ser sua desculpa para nada, não em um mundo onde indústrias inteiras fazem estudos acerca da nossa população.
Com o passar dos anos, eu fui honrado com a amizade de feministas fortes e maravilhosas, que me mantinham consciente a respeito do fato de que todo dia elas passavam por alguma atitude de sexismo ou misoginia. Como homem forte e negro, raramente tenho que me preocupar em ser seguido ou sexualmente abusado na rua; isso acontecia e continua acontecendo frequentemente com mulheres em áreas como Nova York. Eu acho que, como homens gays, nos tornamos tão preocupados com essa ideia de ter que esconder nossas vidas pessoais de colegas, familiares e etc, que esquecemos que ainda gozamos de um bocado de privilégio masculino que nossas amigas não têm.
Em algum ponto da vida, eu também percebi que homens gays se permitiam entrar em uma cômoda e inescusável rotina de objetificação, humilhação e desprezo de mulheres.
Muitos de nós estamos acostumados com a ideia de o privilégio masculino estar relacionado a homens heterossexuais, de forma que ignoramos o fato de que homens gays também podem exercer dominância e controle sobre mulheres. Nós podemos esquecer isso porque muito da história americana mostra os homens gays como vítimas – e como homens gays, muitos alegremente compram essa narrativa mesmo se essa não é a sua história pessoal, porque isso propocia uma forma fácil de se introduzir na cultura gay masculina como um todo. Apenas na última decada a identidade homossexual masculina foi aceita nos discursos casuais – e normalizada em nossa dieta cultural. Antes de mergulharmos mais profundamente nisso, é cauteloso delinear que, para as propostas deste artigo, “homens gays” é um coletivo subjetivo e impreciso para tais homens. Não é um grupo estático – é um aglomerado do qual eu mesmo já fiz parte por um tempo.
As subculturas americanas para as quais a cultura gay é indesejável hoje são exceção, não regra. Com essa mudança, entretanto, homens gays estão perdendo o diferencial que até agora nos marginalizava em relação aos homens héteros. Nós estamos começando a aproveitar privilégios fundamentais que as mulheres não possuem ainda.

AS VANTAGENS DE SER HOMEM

Visto que sabemos como colocar as cartas no mundo corporativo, nós podemos potencialmente gozar de um maior salário que nossas equivalentes mulheres, pois nossa cultura ainda paga homens e mulheres de forma desigual. Da mesma forma, enquanto soubermos como usar nosso cinismo, não estamos tão propensos a sofrer assédio sexual quanto as mulheres. Não é perfeito, mas privilégio é privilégio.
Verão passado eu estava saindo com um cara cujo amigo ficara fazendo várias piadas sobre estupro. Ele estava orgulhoso do que acreditava ser uma inteligência notável, tão apurada que aparentemente causaria inveja no P.G. Woderhouse [3]. Esse tipo de discurso era o que mostrava quão pouco ele interagia com pessoas do sexo oposto, que ele não dá a mínima para o que uma ameaça real de violência sexual representa para as mulheres. Pior ainda foi a indiferença do dito possível namorado diante de um dos seus amigos de longa data jorrando essas piadas – ele realmente ficou dando corda. Era como estar preso na Terra do Nunca com um casal de garotos perdidos – é também o tipo de situação no meio masculino gay que faz você perceber como as pessoas se utilizam de seus privilégios.
Fragmento do the Daily Kos :
“Homens gays desejam as mesmas vantagens da masculinidade que heterossexuais possuem, mas homens gays simplesmente não ocupam o mesmo status e espaço social que homens héteros. Eu sempre me encolho quando vejo um escrito sobre poder masculino e privilégio porque, como homem gay, simplesmente não sou privilegiado dessa forma. Não importa se eu sou machão como o Clint Eastwood falando sobre Halftime in America ou se sou tão viadinho quanto Chis Colfer no papel de Kurt Hummel do Glee, eu simplesmente não posso ser colocado no mesmo saco que homens heterossexuais. Mesmo se nós aprovássemos todas as leis pelos direitos dos gays imagináveis nesse instante, demoraria décadas, se viesse a acontecer, para que eu tivesse acesso às vantagens culturais da masculinidade. De certa forma, essa agenda está precisando de um adjetivo quando eruditos e intelectuais tratam do poder masculino e privilégio: certifiquem-se de deixar claro que estão falando de homens heterossexuais.”
Isso foi escrito no início de 2012. Agora, quase dois anos depois, o mundo tornou-se um lugar dramaticamente diferente – não completamente diferente, perceba, mas diferente o suficiente para que muitos homens gays comecem a gozar de muitas “vantagens da masculinidade” que homens héteros possuem.
Há limites e ressalvas. Como homens gays, nós ainda temos que ficar calculando; se vivermos nas cidades certas, procurarmos empregos nos lugares certos, teremos acesso às mesmas vantagens da masculinidade que nossos pares têm. Se vivermos nas cidades erradas, seremos ostracizados e forçados a voltar pro armário. Com certeza nós não podemos segurar a mão de nossos namorados em público por medo de ouvir piadinhas ou sofrer assédio na rua; não podemos nos casar em mais da metade dos EUA. Nós podemos não gozar de tantos privilégios quanto os heterossexuais possuem, mas como outro escritor do Daily Kos pontuou, nós ainda estamos menos propensos a sofrer preconceito por estar acima do peso em entrevistas de emprego, não temos que lidar com maquiagem ou fazer o cabelo, e não estamos sob a possibilidade de ter nossa opinião chamada de “loucura feminina”. Há um mundo de preconceitos com os quais não precisamos lidar que as mulheres precisam.
Talvez essa simples constatação seja o porque de muitos homens gays fazerem cena – e muitas vezes contra mulheres, porque eles não podem se safar disso. A cultura decretou que a misoginia dos gays contra as mulheres é charme, parte do pacote de características que “os gays simplesmente são”. Para os sem criatividade entre nós, a misoginia pode ser uma forma desesperada de reafirmar as fugidias vantagens da masculinidade.
***
Alguns anos atrás, eu estava em uma festa de aniversário no Harlem [4]. O vinho estava liberado, talvez até demais. Eu combinei com uma amiga próxima que se aquela festa estivesse ruim, nós poderíamos sair pela tangente a qualquer minuto e pegar um táxi para algum lugar melhor. Além de poucas mulheres, a lista de convidados era de maioria homens gays.
Eu estava no meio de uma conversa com a minha amiga e uns outros amigos convidados da festa. Nós estávamos reunidos em volta da tigela de ponche na cozinha. A organização do Flat era tal que você tinha que passar pela cozinha para ir ao banheiro – e o corredor era estreito. Quando um dos convidados pediu licença para passar por trás dela em direção ao banheiro, nossa conversa abruptamente parou ao percebermos uma feição de choque emergir em sua face. Ela disse que o convidado tinha batido na sua bunda.
Quando ele voltou, eu não falei nada do ocorrido – esperando que ele retificasse a situação, ou pelo menos fizesse algum comentário adicionando um contexto que explicasse esse comportamento. O tempo passou. Quando minha amiga saiu para checar suas mensagens de voz, eu falei para ele se desculpar com ela quando ela voltasse. Ele concordou, mas depois de alguns protestos. Ela voltou, ele se desculpou, e nós continuamos nos divertindo. Até que abruptamente paramos.
Aparentemente, ele estivera cozinhando em silêncio. Dez minutos depois, ele estava a puro vapor, anunciando que não pensava estar errado sobre tocar a minha amiga inapropriadamente sem seu consentimento – mas que eu estava errado em exigir desculpas dele. Eu estava errado – e minha amiga estava errada – porque ele era gay; porque ele nos disse que o que ele fez não foi um desrespeito ao espaço pessoal, mas um “tapinha amoroso”.
Além de re-proclamar sua orientação sexual, ele adicionou: “eu trabalho no teatro. Isso é só como nós agimos uns com os outros.” Um monte de “e-se”s passaram pela minha mente. E se ele fosse heterossexual? A festa inteira teria se virado para ele exigido que ele se desculpasse, ou até fosse embora. E se ele decidisse pegar na bunda da Idina Menzel ou da Patti Lupone em um evento comercial; ele usaria os mesmos argumentos? Ou ele partiria para um sincero ato de humildade? As pessoas iriam deixar pra lá, ou iriam brigar com ele? Suas desculpas evocam os mesmos argumentos que meu ex-melhor amigo cosumava usar. Aparentemente, minha amiga precisava relaxar e achar graça de ter seu corpo inapropriadamente tocado. Bem assim: culpabilizando a vítima.
Eu pedi licença para ir ao banheiro e quando voltei percebi que minha amiga e aquele cara não estavam mais lá. Meu estômago deu um nó. Outro convidado me disse que eles tinham ido até a sacada, conversar. Depois eu soube que minha amiga queria usar oportunidade para tomar um ar e conversar cara-a-cara para calmamente convencê-lo de que o que ele fez não foi algo legal. Seus esforços foram inúteis; ela mal podia dizer uma palavra antes dele atropelá-la, falando mais alto e mais alto para tentar provar que estava certo, até que ela decidiu que simplesmente não valia a pena insistir.
Ironicamente, ele esteve tentando persuadi-la de que eu estivera implicando com ele antes – mesmo sem saber o que ele estava fazendo com ela naquele momento.
Existe um monte de privilégio associado a assumidamente invadir os limites pessoais de alguém dessa forma. Mas a culpabilização da vítima que se seguiu foi muito mais perversa. No fim das contas, o convidado encontrou uma forma de tornar o ambiente da festa hostil. Quando sua tentativa desesperada de fazê-lo ver seu erro falhou, nós dois deixamos pra lá e decidimos ir para casa, sentindo os olhares dos convidados nos queimarem.
O dono da festa, que estava dormindo durante toda essa provação, me mandou uma mensagem de texto no dia seguinte me criticando por ter feito uma cena, sem me perguntar a história toda. E então parou de falar comigo.

PADRÕES CULTURAIS COMO MODELOS DE AÇÃO

Eu não estou muito preocupado em descobrir quando esse tipo de objetificação tornou-se regra. Eu me assumi em 2004, quando as redes de TV finalmente descobriram que podiam ganhar dinheiro favorecendo alguma versão da aparição de pessoas gays. Era o auge de Will & Grace, America’s Next Top Model, Queer Eye for the Staight Guy e Sex & the City. Os Scissor Sisters estavam fazendo sucesso com seu epônimo álbum de estréia. Rufus Wainwright conseguira se tornar um pilar rock-pop. Culturalmente, os EUA estavam entrando em uma era divisora de águas para a aceitação da identidade gay masculina.
Entretanto, como homens gays e símbolos da cultura gay masculina estavam se tornando comuns no discurso da cultura popular em geral, uma persona gay masculina estava se tornando idealizada: o Affluencer [Influenciador Afluente]. Essa persona é definida pela atenção a detalhes, ter gosto por itens de luxo, sensibilidades indumentárias, promiscuidade casual, predileção por musica pop e por sua malícia. A cultura popular estava ensinando a seus consumidores que ser gay significava ser como Will ou Jack do Will & Grace. A cultura popular estava ensinando gays recém-assumidos que eles poderiam ser bem-vindos no espaço heteronormativo se eles fizessem o papel desses moldes pre-aprovados da identidade gay masculina. Como era de se esperar, essa persona – controlada pela mídia mainstream – permitiu a homens gays uma margem liberal da misoginia, possibilitando a eles que descrevessem esse comportamento como parte de sua identidade.
Homens gays poderiam dizer coisas do tipo “Eu acho vaginas tão estranhas” ou, mais redutivamente, “EEca!”, na menção da anatomia feminina, porque essas respostas eram vistas como hilárias, pois as implicações negativas desse humor não eram jamais analisas.
Isso é muito triste, porque muitos de nós não têm o luxo de exemplos em nosso desenvolvimento. A cultura popular atua como um substituto. Quando vemos um molde da identidade masculina gay ser universalmente reconhecida como aceita, nós queremos experimentá-la. Queremos fazê-la funcionar. Depois de nos dizerem em nossos anos de desenvolvimento que não há lugar na sociedade tradicional para nós, ver representações da identidade masculina gay em tal sociedade significa que podemos finalmente amadurecer. Podemos desfrutar de alguma igualdade. Podemos “ser nós mesmos”*. Digo, se “nós mesmos” couber nos limites da perspectiva da identidade masculina gay que está sendo mercantilizada, embalada e replicada por homens gays que trabalham no reino da mídia de massa.
Esses substitutos, então, são preocupantes.
Por exemplo, em 2010, o juiz do Project Runaway e designer de moda, Usaac Mizrahi, apertou os seios da Scarlet Johansson no tapete vermelho do Golden Globes. Quando ela olhou para ele, visivelmente horrorizada, ele retorquiu que ele era gay, então tudo bem. Não tão bem, de acordo com ela. [5] Mas quando ele age tão invasivamente com pouca ou nenhuma consciência, isso manda uma mensagem para homens gays que ainda estão construindo suas identidades e tentando descobrir como caber em um mundo que ainda não encontrou uma maneira de reconciliar identidades não-heterossexuais completamente.
Sobre o The Good Men Project, Yoko Akili escreve:
“Em uma palestra recente, pedi a todos os estudantes homens gays presentes que levantassem as mãos se na semana anterior eles houvessem tocado o corpo de uma mulher sem seu consentimento. Depois de um momento de hesitação, todas as mãos dos homens gays da sala estavam levantadas. Então eu pedi aos mesmos homens gays que levantassem suas mãos se na semana anterior tivessem oferecido a uma mulher um conselho não requisitado sobre como “aperfeiçoar” seus corpos ou seus estilos. Mais uma vez, depois de um momento de hesitação, todas as mãos da sala estavam levantadas.”
Então você tem jovens homens gays testemunhando o comportamento de Mizrahi; “eu sou gay” torna-se uma desculpa aceitável para que homens gays bisbilhotem e desrespeitem corpos de mulheres. É endêmico de uma cultura gay masculina que logo utilizem o fato de terem sido vitimizados como uma desculpa para agir como babacas ao invés de evitar esse comportamento, ou melhor, corrigir tal comportamento.
Mizrahi é um exemplo. Em Will & Grace, você pode criar todo um Jogo de Bebida baseado no número de vezes que Jack se torce diante da menção da sexualidade feminina ou diz algo sobre o corpo da Grace; é feito pra ser engraçadinho, mas acaba soando como um disco misógino arranhado. Existem memes – como o Sassy gay Friend – cujo humor reforça a ideia de que está tudo bem para homens gays chamar mulheres de “vadias” se isso serve a um contexto cômico.
Ambos os exemplos também demonstram o problema relacionado ao construto de “maria purpurina”. Essa ideia de que há uma proporção de 1:1 entre homens gays recém assumidos e suas melhores amigas mulheres é uma objetificação de marca maior; não serve a ninguém. Pinta uma imagem de que a sexualidade gay masculina necessita do papel de uma mulher – mas, além disso, pinta a imagem de mulheres servindo homens, mantendo-os de pé. Mulheres acabam usando homens gays como substitutos para namoradas; homens gays acabam usando mulheres como terapeutas e sacos de pancada, que têm a função de fazê-los se sentirem melhor sobre si mesmos, ao mesmo tempo precisam lidar com a eventual enxurrada de xingamentos como “vadia”, “puta” e “vagabunda”. Quando homens gays e mulheres podem superar a natureza generificada de seu relacionamento, essas tendências destrutivas se derretem, mas é mais provável que essas relações implodam.
No The Outs [6], do Adam Goldman, vemos essa proporção 1:1 falhar espetacularmente, uma das tramas mais fascinantes e verossímeis da série. Mitchell e Oona são apresentados ao público como melhores amigos, mas com o desenrolar dos sete episódios da série, eles se tornam mais e mais estranhos. Mitchell espera que Oona aja como um ombro amigo para seus relacionamentos falhos, enquanto Oona espera que Mitchell aja como seu acompanhante quando ela participará de uma festa do seu ex. Ela até pede que ele tire seu cardigã e “fique mais viril”. Tão longe quanto as amigas de homens gays possam ir, Oona vai, maravilhosamente impetuosa – e é por isso que nós podemos enxergar essa relação baseada na objetificação, colapso.
Surpreendentemente para alguns, também há mulheres que não são impetuosas ou expansivas como Oona. De fato, a ideia de que mulheres amigas de homens gays sejam cruéis, escandalosas e desequilibradas é, por si só, um péssimo estereótipo que vem sendo perpetuado também por homens gays. Como homens gays, muitos de nós interpretam o silêncio das amigas que temos insultado como consentimento. Isso nos permite considerar que é apropriado para nós tratar todo o gênero de acordo. Em algum momento, alguma amiga mulher pode dizer “isso não é legal”, ou te estapear – mas você sabia que isso aconteceria. É tudo o que precisa, e muitos de nós crescem fora dessa maneira de pensar. Mas outros não.
É assim que você acaba com inúmeros homens gays cujas vidas sociais consistem quase exclusivamente em sair com outros homens gays. Como você pode aprender a ser humano se você só se relaciona com outros clones de si mesmo?

APARÊNCIA DE BONECA BARBIE

Talvez a forma como homens gays agem em relação às mulheres possa ser sumarizada por como eles enxergam mulheres como figuras – graças, em parte, ao culto de divas inerente à identidade gay masculina. É um tipo específico de pensamento que permite a homens gays desumanizar mulheres – enxergando-as como objetos abstratos. Talvez seja também o porquê de um blogueiro como Perez Hilton poder facilmente construir toda uma marca desprezando os corpos de mulheres apresentadoras e artistas.
De fato, em 2009, a Anna North do Jezebel compilou uma lista parcial da descrição de celebridades mulheres feitas pelo Hilton. Seria fácil relevar os comentários dele como o surto de um troll solitário de internet se não existissem incontáveis homens gays que já estão seguindo seu exemplo. De alguma forma, ser gay tornou-se uma forma subtendida de muitos homens acharem que sempre estão certos quando falam dos corpos das mulheres, quando, brincando, usam “vadia”, “puta”, “vagabunda” como sinônimo para “moça” ou “mulher” – e a rapidez com a qual eles se tornam defensivos quando chamada a sua atenção para esse tipo de inconveniência.
Uma vantagem da masculinidade gay em particular é que muitos de nós somos cúmplices na forma como a imagem da mulher é revestida, mercantilizada e distribuida pela mídia. Somos cúmplices na total objetificação das artistas mulheres em shows por torná-las deusas ou julgá-las como fracasso. O culto a divas é uma das ultimas formas de objetificação. Lady Gaga, Christina Aguilera, Selena Gomez, Beyoncé: são todas performers cujos agentes e marketeiros cultivam suas marcas com a finalidade de fazê-las sedutoras para a estética gay masculina. É irônico porque essas estrelas são vendidas como semideusas, mas, ao fazê-las parecer sobrehumanas, elas também são vendidas a nós como produtos, como algo cuja humanidade foi extirpada. Divas são objetos; mulheres não são. Divas não são nada mais que bonecas Barbie glorificadas. Mulheres não.
O culto à diva tornou-se traiçoeiro – uma forma de reforçar um mito de aspiração no qual muitos homens gays apontam ao sexo oposto que, a despeito do fato de merecerem esse status absurdamente elevado, não passam de marias purpurinas descartáveis:
Pense na linguagem:
“A Britney arrasa!”
“A Gaga e melhor que as suas favoritas!”
“Ela está tão gorda nesse vestido””
“Ela é TÃO horrorosa!”
“Que vagabunda.”
Como homens gays se referem a artistas mulheres contribui para a objetificação – seja intencionalmente ou não. Às vezes dizemos que um artista “arrasa” como uma forma superlativa de dizer que ela está fazendo algo incrível. Isso não é problema. Devemos sempre ser positivos em relação às artistas; o problema ocorre quando o pendulo balança para o extremo oposto; quando dizemos que ela é “um lixo”, como uma forma superlativa de falar que ela está fazendo algo ruim. É sempre exagerado. Não há meio termo para ela, ou apenas ser. Pelo contrário, quando discutindo pop-stars homens, como Justin Timberlake ou Drake, por exemplo, esse tipo de linguagem é rara ou inutilizada. Uma grande parte disso se deve ao fato de que pop stars homens não preenchem a figura do culto à vida como as artistas mulheres preenchem.
Somos treinados para idolizar nossas divas pop como se elas fossem apenas Barbies de carne e osso. Para completar nossos deveres de fãs, nós derrubamos outras divas. Essas artistas deixam de ser mulheres para nós, graças à linguagem que usamos – elas também se tornam deusas ou lixo. É aí que a linguagem maldosa se torna eminente. Isso tudo fica mais problemático quando essa linguagem é aplicada em grande escala para todas as mulheres, dando a homens gays carta branca para enxergar mulheres como objetos.

IMITAÇÕES DE FEMINILIDADE

A cultura gay masculina reivindica a feminilidade quando ela surge na forma de algum aprumado produto de entretenimento – quando nos pedem para não pensar realmente na mulher, mas sim no produto pré-pronto e embalado diante de nós.
Nós até definimos o que constitui a feminilidade, incluindo maquiagens extravagantes, modas excêntricas, tejeitos teatrais e por aí vai. Nós descobrimos como tecer esses ornamentos de feminilidade em cópias espetaculares da feminilidade sem na verdade ter empatia com as mulheres. É por isso que Ruan Murphy se destaca ao criar as personagens glamurosas e moralmente repreensíveis de Jessica Lange em American Horror Story. Nós amamos Lange no papel de Constance Langdon, Irmã Mary Jude e Fiona Goode, mas nunca estamos convencidos de que ela seja mais do que uma cativante e alegórica anti-heroína.
A cultura popular até mesmo aceita que homens gays saibam o suficiente sobre os corpos das mulheres para criar-lhes roupas. Uma coisa problemática que Karl Lagerfeld [7] disse certa vez: “a mulher é a boneca mais perfeita que eu já vesti com prazer e admiração.”
Então, né.
Para esse efeito, é universalmente aceito que homens gays possam aconselhar mulheres em como fazer seus cabelos ou maquiagem, ou fazer uma passarela adequada. É irônico quando você percebe que muitos homens gays passam pouco tempo interagindo realmente com mulheres ou enxergando-as como seres humanos. Mais uma vez, nós olhamos para o comentário do Lagerfeld a respeito de mulheres “bonecas”. Ou, mais adiante, como quão pouca experiência de mundo real os homens gays têm com os corpos das mulheres. Afinal, nós somos definidos pelo nosso desejo de transar com outros homens, não com mulheres.
Além de ditar como as mulheres devem se vestir, muitos homens, eles mesmos, evitam trejeitos femininos. A cultura gay – da maneira que tem sido pintada e replicada – não quer personificar ou emprestar muito da feminilidade. Com certeza temos gays aparentemente afeminados, porta-vozes da cultura do entretenimento – mas como consequência de sua afetação, eles são retratados praticamente como eunucos. A preferência na cultura mainstream ainda tende para o Brokeback Mountainesco [8] retrato de homens gays. Saia com grupos de praticamente todos os homens gays e você descobrirá que existe uma alarmante, se progressiva, raridade: os “masc-acting str8” [machões metidos a héteros] que chegaram ao topo – e fazem as regras do jogo. Muitos atraem os homens mais femininos para congregar consigo. Muitos perseguem os demais tipos “masc-acting str8”. Outros, possivelmente, caem fora.
“Nada de afeminados” é um refrão popular no mundo dos homens gays que relacionam-se uns com os outros; é uma estipulação que frequentemente aparece em paralelo com os “masc-acting str8”. Essa discriminatória tendência de gostos existente no mundo da paquera gay é cômica. É triste, contudo, que a máxima “nada de afeminados” dispense massas de potenciais amigos e parceiros só por causa dos seus trejeitos, estilos ou gostos culturais que se aproximam da feminilidade – sem considerar que, hey! talvez esses caras sejam legais. É essencial, para o ímpeto dominante, que homens gays exerçam misoginia.
Essencialmente, “nada de afeminados” é um completo repúdio da feminilidade, de qualidades que fomos levados a acreditar que são mais representativas das mulheres que dos homens. Bem como muitas coisas no mundo dos homens gays,”nada de afeminados” é um tipo de linguagem em código que trai uma linha de pensamento muito mais fundamental na subjetivação gay masculina. O escritor e ator Billy Porter acerta em cheio:
“As pessoas gays extravagantes recebem mais atenção, mas nós passamos por todo tipo de coisa… Eu acho que é um problema de auto-ódio trazido pela sociedade. Você quer assimilar. A única coisa que nós queremos como seres humanos é ser aceitos.”
Isso quer dizer que uma grande quantidade de homens gays creem que ser feminino é antiético para o auto-empoderamento e a auto-atualização; que eles não se entenderam totalmente com a sua sexualidade e vêem feminilidade como algo que pode minar sua masculinidade.
O que acontece é que não apenas a perpetuação proposital de atitudes misóginas, mas também a diluição e progressiva segmentação da comunidade gay, onde homens gays inseguros estão inclinados a um arquétipo masculino idealizado – e evitam arquétipos com traços de feminilidade até que acabam criando mundos sociais onde todo mundo aparenta, se veste e age como eles – onde mulheres cada vez mais ocupam a periferia.
Será essa a disseminação de um retrocesso social?
Muitas de nossas formas tradicionais de congregação social excluíram mulheres – como o açougue mostrado no início desse artigo. [Veja o artigo original para ter acesso às imagens]
Coloque comida num bar gay e você vai descobrir todo um mercado artificial de carnes – microcosmos amplamente desprovidos de mulheres. Estar invisível dentro de qualquer bar gay de cidade grande é um experimento fenomenal; é um ponto de vista privilegiado para observar as políticas de como os homens se comportam e estudam uns aos outros em um contexto artificial onde mulheres não existem.
Quando você tem essa livre socialização de homens gays em um universo onde mulheres só existem como grandes ícones pops em chamativos videoclipes nas enormes telas de TV penduradas sobre o bar, você tem uma cultura que se tornou complacente com o afastamento social de uma porção considerável da humanidade. Nesses guetos, mulheres são abstrações, símbolos, mas jamais encorajadas a serem seres reais tridimensionais.
A vibe clube do bolinha da maioria dos bares gays é inquietante. Você vê inúmeros jovens gays que aprendem uns com os outros, mas muitos dos quais praticamente não convivem com mulheres. Eles esquecem como se comportar e interagir com o sexo oposto. Se o tópico é como homens héteros objetificam mulheres hipersexualizando-as, para homens gays o problema é dessexualizá-las inteiramente.
Kate Conway escreveu para a XO Jane [9] um artigo intitulado: “Serão todos os homens gays secretamente misóginos?” [tradução livre]
“Eu tinha vários amigos na faculdade que poderiam exemplificar o que eu estou dizendo. Quando eu perguntei a um deles recentemente, ele afirmou que ele se sentia mais confortável dessa forma naquela época de sua vida. Ele tinha acabado de sair do armário, estava fazendo novos amigos na comunidade gay e em geral – era mais fácil, disse ele, apelar para uma narrativa conhecida até que se sentisse mais confortável com a situação.
O que faz sentido, particularmente em termos de caras universitários. Se um jovem gay percebe que um comportamento o permite encaixar-se a seus pares, não é surpreendente que ele queira reproduzí-lo.”
Todos nós queremos nos encaixar, especialmente se passamos nossas adolescências sem objetivo e só encontramos nosso rumo nos vinte e poucos anos. O que se torna alarmante é que para muitos dos jovens implicar com outros adolescentes gays na escola é a única maneira de ser incluído; então o fato de crianças que cresceram sofrendo bullying praticamente replicarem esse mesmo comportamento, mas em relação a outro grupo historicamente marginalizado, demonstra uma tendência amnésica da comunidade gay – uma em que nós não nos consideramos responsáveis, apenas esperamos que as vítimas aguentem tudo caladas.
Quando eu fiquei cansado da cultura de gado dos bares gays, tentei uma alternativa: simplesmente sair com meus amigos – quem quer que fossem – para bares “agnósticos” em sexualidade. Quando nós coletivamente cansamos dos bares em geral, trouxemos a festa para um dos nossos apartamentos – e foi aí que começamos a ter discussões incisivas e extensas sobre humanidade, gênero, sobre a improvável objetificação entre homens héteros e homens gays (“isso é uma via de mão dupla, contudo”, pontuou um dos meus amigos). Ao longo dos meus 20s, eu tentei não ser um babaca – mas percebi que nesses capítulos da era particular da minha vida em que passei a maior parte do tempo nos cantos escuros de bares gays com amigos de farra, eu comecei a me tornar uma pessoa socialmente inculta. É impossível frequentar espaços que promovem os interesses de um gênero sobre os de outro sem acabar com valores morais distorcidos.

“QUEER” VS “GAY”

Uma ameaça frequente aqui é a misoginia comum. Quando homens gays convivem com mulheres, mulheres frequentemente sofrem a pressão de guardar suas preocupações sobre a forma com a qual seus corpos estão sendo falados e tratados por homens gays. O fato de homens gays poderem chamar uma invasão do espaço pessoal de “tapinha amoroso” ou que homens como Mizrahi enxergem os seios da Scarlett Johansson como piadinha ou que homens admoestem outros homens em avenidas gays por serem “muito afeminados” são só formas pelas quais a misoginia é sorrateiramente executada e perpetuada por homens gays.
Muitos de nós crescemos; passamos a entender quão horrendo é esse comportamento. Começamos a colocar limites – é infantil desculpar comportamento misógino com o fato de ser gay. Enquanto muitos de nossos pares afundam ainda mais na bolha – envelhecendo numa vida norturna quase exclusivamente masculina, em meio ao culto a divas e à antiquada noção de marias purpurinas – ao invés de procurar por algo mais. Isso acaba afetando a forma como eles se conectam à cultura, numa perspectiva mais ampla.
Eu estive num encontro, recentemente, em que, mexendo distraidamente o meu martini, percebi como eu tive que “cair fora” do mundo gay mainstream alguns anos antes. Aquilo tudo era demais pra mim. Eu via exs em todos os lugares. A pressão de trabalhar muito, ficar acordado até tarde e beber até cair, até meu fígado pedir arrego, se tornara tediosa. O fato de que eu jamais podia ter uma conversa com qualquer um porque (1) a música era tão alta que não podíamos ouvir nossas próprias vozes e (2) ninguém era capaz de manter uma conversa que justificasse quanto tempo e dinheiro eu estava gastando nesses lugares.
O cara com quem eu estava saindo olhou pra mim e assentiu; era por isso, disse ele, que ele não se indentificava mais com a palavra “gay”, alinhava-se mais ao rótulo “queer”. Não foi a primeira vez que eu ouvi isso; eu tenho alguns amigos que nos últimos anos deixaram a palavra “gay” de lado em favor do termo “queer”. “Queer”, um termo guarda-chuva para quem ama os seres humanos em uma grande variedade de formas.
“Queer” é uma palavra carregada. Que faz as pessoas arrepiarem, devido a seu uso mais recente como insulto homofóbico. É uma palavra talvez mais inclusiva que LGBT – porque encapsula e inclui uma variedade de expressões de gênero. A palavra “gay” tornou-se restritiva; “gay” é modern family [11], casamento igualitário e homens fortes e estilosos com rios de dinheiro e casas lindas. “Gay” pode ter sido a palavra da comunidade muito tempo atrás, mas agora esse termo tem donos que o enviesaram para servir a suas identidades – homens como Andy Cohen, Ryan Murphy, Rufus Wainwright, homens que gozam de enorme alcanço e da habilidade de moldarem os gays mais jovens. “Gay” não é mais uma palavra forte – foi tão debilitada que seguradores de tocha poderiam carregá-la.
“Queer”, por outro lado, confunde. Confunde porque vai contra a obsessão contemporânea da taxonomia de gênero. Da wikipédia:
“O leque do que ‘queer’ inclui varia. Além das pessoas LGBT, esse termo pode abranger: pansexuais, pomossexuais, intersexuais, genderqueers, asexuais e autosexuais, e ainda heterossexuais cujas orientação sexual ou práticas sexuais os coloque fora do comumente definido como heterossexual, como praticantes de BDSM ou pessoas poliamorosas”
“Queer” é uma palavra incrível; coloca na mesa um lugar pra todo mundo, incluindo a mesma identidade “gay” que tanto afastou aqueles que se identificam como “queers” da maneira que essa palavra é significada agora. O que significa que identificar-se como “queer” é ficar tranquilo com sua masculinidade ou feminilidade, de forma que você não tenha que ficar constantemente atento à sua expressão de gênero. Surpreendentemente, quando você não está se odiando por ser minimamente afeminado, você acaba respeitando mais as mulhers. Você acaba desaprovando e até mesmo calmamente corrigindo aqueles seus amigos que se identificam como “gays” por seus “tapinhas amorosos”.
Da mesma forma que qualquer privilégio, o privilégio dos homens gays acontece e é perpetuado quando pessoas pressupõem a maior parte de sua identidade e permissibilidades durante a vida com base no componente biológico. A escritora feminista Peggy McIntosh escreveu, em seu artigo “Privilégio Branco: Revelando a sacola invisível”:
“Nós frequentemente pensamos em privilégio como um estado favorável, seja ganhado ou conferido a si por nascimento ou sorte. Ainda assim algumas das condições que eu descrevi aqui trabalham sistemicamente no empoderamento de certos grupos. Tal privilégio apenas confere dominância sobre a raça ou o sexo de alguém.
Desejo, então, distinguir força adquirida de poder não adquirido, conferido a alguém sistematicamente. O poder do privilégio não adquirido pode parecer força quando, de fato, permite que [o indivíduo] escape [de uma posição de assujeitamento] ou domine [outrém]. Mas nem todos os privilégios da minha lista são inevitavelmente danosos. Alguns, como a expectativa que vizinhos sejam decentes com você, ou que sua raça não seja usada contra você em um tribunal,deveriam ser a regra em uma sociedade justa. Outros, como o privilégio de ignorar pessoas menos poderosas, distorcem a humanidade daqueles que o possuem, bem como dos grupos ignorados.”
Mais uma vez, os comentários de McIntosh a respeito do privilégio branco masculino podem ser considerados também para os homens brancos gays. Como homens gays, nós temos sido largamente condicionados a acreditar que quando diminuímos mulheres é okay, porque nós também fomos vítimas de opressão e somos gays e que mulheres “entendem”. Questionar essa justificativa é tocar em todas os “silêncios e negações” que alimentam essas atitudes. Enquanto a apropriação politicamente correta da identidade gay quer dizer que “todo mundo é bem-vindo”, também significa que ninguém fala sobre a maneira como o privilégio masculino dos gays – que às vezes vem junto de privilégio branco de formas bastante evidentes – diminui as mulheres, às vezes de forma veemente.
Nós somos encorajados a não falar das maneiras que homens gays podem usar linguajar abusivo contra, ou em referência, ou mesmo na frente de mulheres. Nós somos encorajados a não fazer tal coisa a um ponto que quando tentamos agir nos interesses da decência, terminamos saindo como culpados.
Uma reconstrução da palavra “gay”, dessa identidade em particular e sua infeliz marca de privilégio que trivializa mulheres implicaria na adoção de uma mentalidade menos inclinada à definição da identidade baseada na biologia, e mais influenciada por interesses em comum. Então dois homens têm uma conexão não porque ambos têm uma inclinação a namorar outros homens, mas porque eles compartilham das mesmas visões de mundo. Isso tira o problema de focar em expressões de gênero, de sexualidade, e enfatiza na real conexão entre humanos por meio da experiência de vida compartilhada.

ROMPENDO COM O PADRÃO

Para redesenhar a atual pintura da identidade masculina gay seria preciso reorientá-la a uma aproximação amável que permita que homens gays deixem um lugar em suas mesas para todos os tipos de pessoas – não apenas aquelas que eles julgam relevantes para seus interesses. Seria tentando anular essa “persona gay ideal” do “affluencer”; significaria ter uns aos outros como modelos possíveis para homens gays mais jovens.
Significaria para muitos homens gays entender que um bairro como Chelsea em Nova Iorque, embora tenha sido, um dia, refúgio contra a pressão heterossexista, tornou-se agora entranha de um tipo de privilégio que seus primeiros moradores alimentaram – um lugar que pode até não discriminar por sexualidade, mas discrimina por classe e raça. Para progredir na forma como nos relacionamos com o mundo à nossa volta, seria importante que muitos de nós tomassemos consciencia de que existem comunidades onde nós temos bastante poder – e temos a habilidade de fazer os “gays” espelharem os “queer” – onde foquemos menos na exclusão, na criação de comunidades de pessoas que olham e agem exatamente como nós, e passemos a focar na inclusão. Também seria exigir um comportamento melhor – e esperar que muitos homens gays entendam que mulheres não existem para dar valor aos homens gays ao seu redor, nem vivem num universo paralelo. Remodelar a identidade gay significaria que entendêssemos a importância da linguagem e do espaço pessoal – e que “não tem problema, eu sou gay” não é mais uma desculpa pra qualquer tipo de comportamento impróprio.
Pode ser um longo caminho em direção aos direitos iguais, mas é inevitável. Estando os homens gays ganhando direitos iguais aos dos homens héteros, é nosso papel lembrar da história de sofrimento e marginalização – e que nós estamos, de muitas formas, começando a passar por cima das próprias mulheres que tendem a ser nossas primeiras apoiadoras depois que saímos do armário.
Não podemos olhar apenas para nossos umbigos. É nosso papel fazer melhor do que o cenário anterior, que tornava a vida das pessoas LGBT muito difícil. Agora é nossa responsabilidade assegurar que, se tem alguém tentando “subir”, nós lhe demos uma mãozinha. >>

[1] The Real Housewives é uma franquia americana de reality séries que documentam a vida de algumas donas-de-casa influentes que moram em diferentes regiões dos EUA.
[2] Tipo o Oscar do teatro americano.
[3] Escritor inglês.
[4] No google: Harlem é um bairro de Manhattan na cidade de Nova Iorque, conhecido por ser um grande centro cultural e comercial dos afro-americanos.
[5] Posteriormente, ela chegou a afirmar que a piada foi de mau gosto, entre outras coisas, ironizando a atitude do homem e demonstrando não ter ficado feliz com ela.
[6]Série original do Vimeo.
[7]Designer Chefe e Diretor Criativo da grife Chanel, bem como a casa de moda italiana Fendi e sua própria casa de moda homônima.
[8]Relativo ao filme O Segredo de Brokeback Mountain.
[9] Uma revista online americana voltada para mulheres e fundada por Jane Pratt.

“O mito da ‘Maria Purpurina’ e os segredos sujos da subcultura gay masculina”, de Rohln Guha

“8 de 10 prostitutas estão sendo exploradas”, de Michaël Torfs

O original está aqui.

<< Aproximadamente 26.000 mulheres estão trabalhando na indústria do sexo da Bélgica. 80% delas estão sendo exploradas, diz a Unidade de Tráfico Humano da Polícia Federal. “A exploração sexual está crescendo. Traficantes de pessoas e cafetões estão trabalhando de formas mais sutis agora”, afirma o detetive Wim Bontinck.

A maioria das trabalhadoras do sexo [sic] estão em cidades grandes como Bruxelas, Antuérpia, Liège e Mons. Mesmo assim, uma rede [de prostituição] também está se desenvolvendo em áreas mais remotas, afirmam os detetives, onde redes menores podem ser encontradas empregando mulheres da Bulgária, Hungria, Romênia, Espanha, Portugal e Nigéria.

A prostituição, por si só, não é ilegal na Bélgica, mas torna-se um ato passível de punição quando está sendo organizada ou quando mulheres estão sendo exploradas. O que é, quase sempre, o caso, na realidade. 8 de 10 prostitutas (em média, 21.000) estão nessa situação. A fim de evitar acusações legais, cafetões e traficantes de pessoas estão encontrando novas maneiras de operar fora do radar.

“Estamos vendo muito mais prostituição privada. Quase sempre é camuflada. Há muito dinheiro envolvido e terceiros estão ávidos para ganhar dinheiro também”, conta o detetive Wim Bontinck.

A luta contra cafetões é dura, mas está na direção certa. “Tentamos atingí-los onde eles são mais vulneráveis: o lado financeiro das coisas. Nós os levamos a julgamento e tentamos confiscar todos os seus bens no seu país de origem”. >>

“8 de 10 prostitutas estão sendo exploradas”, de Michaël Torfs