“Queridas mulheres brancas”, de Isobel Debrujah

O original está aqui.

<< Eu as vejo. Eu as ouço. Eu leio seus comentários. Eu sei o que vocês pensam porque vocês deixam bem claro.

Se Mike Brown nunca tivesse entrado nessa loja, se Eric Harner tivesse feito só o que lhe mandaram, se Tamir Rice não tivesse permissão de brincar com uma arma de brinquedo, eles estariam todos vivos agora. O que aconteceu com eles foi triste, mas eles causaram isso a eles mesmos, não foi?

Vocês não mostram empatia por Mike Brown, ou Eric Garner, ou pelas outras pessoas negras que a polícia matou. Vocês não mostram empatia a mim, como uma companheira mulher, como uma mulher negra que viu, mais uma vez, seu país falhar.

(Ok, ok. ‪#‎Nemtodasasmulheresbrancas‬. Eu entendi, mas se vocês não estão agindo dessa forma, não estou me referindo a vocês.)

Eu, por outro lado, tenho empatia por vocês. Eu sei de onde vocês vieram. Eu sei. Eu sou uma mulher também, e eu vivo no mesmo mundo, e nesse mesmo país.Foi deixado claro para nós, desde o começo de nossas vidas, que nós não temos valor. Além disso, foi deixado claro para vocês, mulheres brancas, que homens negros são o maior perigo com o qual vocês poderiam se deparar.

Isso não é verdade, mas a mentira é difícil de superar, levando em consideração que isso foi repetido tantas vezes e de tantas formas.

Como eu disse, eu entendo. Eu entendo.
Mas isso não é certo e vocês têm que parar. Vocês precisam alcançar lá no fundo de vocês mesmas empatia tanto para os que estão mortos, quanto para os que estão vivos.

Vocês precisam. Isso não é opcional. Vocês têm que fazer isso para sua própria saúde mental e emocional. Vocês têm que fazer isso para a sua saúde espiritual, se é que vocês acreditam nisso. Vocês têm, porque se não conseguirem, estarão se aliando a seus próprios inimigos.

Isso lhes surpreende?

Não. Desculpem. As pessoas que mais se beneficiam em coisas como essa, não apenas aos oficiais de polícia que estão matando pessoas, mas também aos políticos e cidadãos de bem que assistem à violência contra as pessoas que eles não utilizam como uma ferramenta de controle?

Eles te odeiam também. Eles te odeiam e te machucam.

Não é como se as pessoas que defendem o Darren Wilsons e o Daniel Pantaleos of America estivessem respeitando e valorizando mulheres enquanto desrespeitam e desvalorizam pessoas de cor [1].

Isso não acontece.

Estou dando a cara à tapa aqui e digo que pelo menos algumas das pessoas lendo este texto passaram por relacionamentos abusivos. Porque, você sabe, 60% das mulheres passaram.

Preciso que vocês lembrem como eram esses relacionamentos. Lembrem-se de como era estar no centro deles. Não olhem para trás de uma perspectiva de (espero) maior saúde mental e segurança física. Isso é quem vocês são agora.

Lembrem-se de como eram naquele tempo.

Lembrem-se da pessoa que defendeu e inventou desculpas para seu abusador.

Lembrem-se da mulher que tinha de explicar os hematomas e lágrimas.

Lembrem-se da primeira vez.

Lembrem-se da décima vez.

Lembrem-se da centésima vez.

Lembrem-se.

Agora lembrem do que o abusador disse a vocês.

“Se você não me deixasse com tanta raiva…”

“Se você fizesse as coisas direito…”

“Se você me respeitasse…”

Essa pessoa as convenceu de que vocês eram responsáveis pelo abuso. Convenceu que vocês eram culpadas e só vocês poderiam mudar a situação. Convenceu vocês de que se vocês agissem de determinada forma, a qual ele definia e mudava a seu bel prazer, vocês estariam seguras.

Ele lhes convenceu. É por isso que vocês ficavam.

Por favor, não achem que eu as culpo por terem ficado. Não culpo. Eu sou uma de vocês, não uma mulher branca, mas uma sobrevivente de abuso. Eu fiquei também.

Por muitas razões, eu fiquei, mas a principal era o gaslighting [2]. Eu comprei a ideia de que a minha compreensão de relacionamentos; de que deveriam ser baseados em respeito mútuo e autonomia, em valorizar a humanidade do seu parceiro e trabalhar junto rumo a uma vida melhor, estava errada. Eu me permiti ser convencida de que eu estava esquecendo de todo comentário sarcástico, toda ação deliberadamente ofensiva, todo centavo gasto para nos manter pobres e desesperados.

E eu fiquei, assim como vocês. Não apenas fiquei, como tentei ser menos provocativa.

Tentei ser o que ele queira, porque eu acreditava que os abusos parariam se eu pudesse apenas descobrir a fórmula que me tornasse aceitável e respeitável.

Porque gaslighting funciona. É horrível estar submetida a isso, mas é efetivo. É por isso que eles continuam utilizando-o.

“Você se vestiu que nem uma puta. Se tivesse usado roupas decentes, você estaria bem. Você mereceu.”

“Você não deixou minha janta na mesa. Se soubesse manter uma casa direito, estaria ilesa. Você mereceu.”

“Por que você está chorando? Palavras não machucam. Você é tão emotiva. Você está exagerando. Se você pudesse parar de ser uma vadia doida, você estaria melhor. Você merece.”

E, quer saber? A América vem gaslighteando seus cidadãos negros desde 1619.

Tarryvon era só um bandido. Ele não era uma criança voltando para casa que foi atacada por ser negra e estar na rua. Ele mereceu.

Mike Brown roubou! Ele atacou o policial! Se ele não tivesse cometido um crime, se ele tivesse sido respeitoso com o policial, ele estaria bem. Ele mereceu.

Eric Garner estava vendendo cigarros ilegalmente. Se ele tivesse acatado os três policiais que estavam em volta dele, agredindo-o, depois que ele apartou uma briga e ajudou sua vizinhança. ele estaria bem. Ele mereceu.

Pessoas negras são só bandidos.

Pessoas negras merecem.

Isso não é verdade.

Vocês sabem que não é verdade, assim como não era verdade quando seu abusador tentou gaslightear vocês, culpando-as pelo abuso que sofreram.

Lembra o que aconteceu? O seu abusador mostrou que vocês não poderiam demonstrar, à época, contentamento, porque esse é o ponto do abuso: o abusador sentir seu poder sobre ti, ou ele vai dobrar o gaslighting.

Eles fizeram tudo girar em torno deles. Eles disseram quanto machucar vocês machuca eles. Ou talvez eles nem sequer tenham admitido que machucaram. Quem sabe, era só mais um exemplo de vocês agindo feito “loucas”. Oh, eles eram tão bons que ficaram e aguentaram esse tipo de insanidade. Vocês não estão gratas? Não sentem empatia pela dor deles?

Vocês sabem o que é verdade? Vocês não apenas não merecem ser abusadas, como também mereciam um relacionamento saudável e respeitoso.

Não abusivo é o mínimo absoluto que uma pessoa deveria, razoavelmente, esperar de uma interação com outro ser humano. Isso se aplica a relacionamentos entre indivíduos e interações entre a sociedade e os cidadãos que fazem parte dela.

Ou melhor: claramente não é, mas deveria ser.

Agora quero que vocês lembrem de outra coisa. Lembrem dos momentos em que vocês não podiam aguentar mais, mas aguentaram.

Não o momento em que vocês decidiram ir embora, estamos chegando aí. Estou falando do momento em que vocês meio que passaram por cima de seu abusador por um instante e o convenceram, de algum jeito, que talvez ele não devesse abusar de vocês tão constantemente e ostensivamente.

Os abusos não acabaram, é claro, mas você deve ter tido um momento ou uma semana ou um mês de trégua. Houve um período no qual, ao invés de gritar nas suas caras que vocês são putas traidoras, e lhes socar, seu abusador apenas leu suas mensagens de texto e lhes stalkeou.

Não era bom, mas não era tão ruim quanto antes, então parecia bom. Vocês o forçaram a dar um passo para trás e atenuar o pior do abuso, e isso as fez sentir poderosas e no controle. Isso também criou uma situação em que vocês estavam aceitando melhor “menos” abuso.

Sim, abuso distorce suas percepções. Porque que porra é “menos abuso”? Eu digitei isso e nem sei direito o que é.

O abuso distorceu as percepções de negros americanos ao ponto em que a falta de respeito e reconhecimento de nossa humanidade parecia boa, enquanto tivéssemos acesso a balcões de almoço e não tivéssemos que sentar na traseira do ônibus.

Nós nos convencemos de que não ser abusados ao extremo era o mesmo que não ser, de todo, abusados. Mas estávamos errados.

Assim como você estava errada quando acreditou que ser stalkeada era o mesmo que não ser abusada.

É, todos estávamos errados.

Por quê? Porque ficamos presos à ideia de que o relacionamento, fosse pessoal ou social, era o melhor que poderíamos ter.

E não é culpa nossa. É uma extensão do gaslighting. É isso que ouvimos e ouvimos, várias vezes, em gritos e sussurros, com socos e balas, até que acreditássemos.

Agora quero te lembrar do momento em que você cansou.

Seja qual for, qualquer coisa ou pensamento ou sentimento que te levou a dar um basta, e primeiro quero dizer que fico feliz. Espero que você esteja mais saudável agora. Espero que esteja feliz. Espero que esteja segura.

Segundo, eu aposto que o momento em que soubemos que tínhamos que ir embora foi bastante similar para todas nós. Não importa como ele nos parece agora, em seu núcleo, esse momento foi aquele em que nós paramos de comprar o conceito de que um pouquinho menos abusada era o mesmo que saudável e feliz e segura.

É nesse momento que vocês souberam que têm valor, que têm direito a serem respeitadas, que vocês merecem algo melhor.

Deixem-me repetir:

VOCÊS MERECEM ALGO MELHOR.

E nós também.

Vocês merecem viver felizes, saudáveis e seguras.

Nós também.

Vocês acordaram e se valorizaram o suficiente para ir embora, ou correr, daquele ambiente insalubre e inseguro.

Nós também acordamos, mas não podemos simplesmente dar o fora de nosso país.

Digo, algumas pessoas podem, mas essas pessoas já o fizeram porque elas tinham dinheiro para isso.

Para o resto de nós, enquanto apreciamos o fato de que não temos mais que sentar no fundo do ônibus, que America parou com os abusos maiores e mais visíveis, os abusos menores e mais traiçoeiros continuam. É a sociedade americana lendo nossos textos e nos stalkeando. Não é algo saudável. Não é seguro. Não é o tipo de vida que merecemos.

Nós merecemos mais.

Não merecemos ser criminalizados por existirmos.

Merecemos os mesmos passos básicos que o sistema de justiça diz que são nossos por direito.

Não merecemos ser sumariamente execurados porque fomos acusados de um crime.

Merecemos ser capazes de arrumar nossos cintos para alcançar nossos celulares sem o mundo todo agir como se isso fosse uma ameaça.

Nós merecemos, assim como vocês não mereciam ser abusadas.

Todo mundo merece uma vida sem abusos, e quando vocês, mulheres brancas com quem eu posso normalmente contar como minhas aliadas em lutas contra os 1% e a misoginia ou por direitos de minorias de gênero e igualdade marital, se recusam a ficar do meu lado nesse problema da raça e do valor dado às pessoas negras na America, vocês se aliam com meus abusadores.

Vocês se tornam iguais às pessoa que as ferem.

Vocês nos ferem com a sua indiferença e sua disposição para nos gaslightear.

Vocês nos ferem com o seu daltonismo e sua insistência de que nossa dor, a dor que negros americanos dividem, tem tão pouco valor que nós não podemos nomeá-la. Vocês nos ferem quando balançam o dedo e dizem que todas as vidas importam, e que eu não deveria me concentrar em “apenas” a vida dos negros.

Vocês nos ferem quando balançam suas cabeças perante a violência em Ferguson e ignora os 100 dias de protestos pacíficos que precederam-na, e quando vocês ignoram as provocações descaradas das figuras de autoridade nessa comunidade.

Quando vocês agem assim, quando menosprezam nossa dor, quando tentam cooptá-la e torná-la sua, quando nos dizem que merecemos os abusos que são despejados sobre nós, isso me choca. De raiva. De decepção. Tanto que eu nem consigo respirar.

Isso me choca porque eu sei que vocês podem ser melhores que isso. Se que, como uma companheira sobrevivente, esse abuso não é algo fácil de lidar. Não é algo fácil de deixar para trás. Eu sei que vocês podem agir melhor que isso, em sua vida diária, em conversas e online.

Eu sei que vocês têm a força e a integridade de calar pessoas quando elas começarem a agir igual àqueles que nos abusaram.

Eu sei que vocês tem a habilidade de olhar indignada, silenciosamente, em direção a alguém, até que essa pessoa pare de tentar convencer vocês e a todo mundo que estiver ouvindo que Tamir Rice merecia ser assassinado por brincar com uma arma de brinquedo.

Eu sei que vocês têm força suficiente para perguntar por que importa que Mike Brown posse ter roubado alguns cigarros, e pontuar que roubo não é um crime pelo qual alguém possa ser executado neste país.

Você tem a responsabilidade de falar em espaços nos quais a minha voz, e as vozes de pessoas como eu, que são mais diretamente impactadas pelo racismo, nunca serão ouvidas.

Eu sei que você pode fazer isso porque pensar de outra forma diminuiria alguém de força, que aguentou tanta coisa, e eu não quero fazer isso com você.

Acredito que você fará isso porque acreditar em outra coisa traz de volta o sentimento de choque e decepção, e justa raiva, e isso não me deixa respirar. >>

[1] “People of color”. Tradução literal. Refere-se a negros e demais minorias raciais.

[2] no google: gaslighting é usado para se referir a qualquer tentativa de fazer outra pessoa duvidar de seu senso de realidade. O agressor levanta informações falsas com a intenção de causar duvida na vitima. A vitima passa a duvidar de suas próprias memórias, percepção e sanidade.

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