“Saindo do feminismo liberal”, de Kate Leigh

O original está aqui

<< Eu não poderia dizer quando realmente comecei a seguir uma filosofia feminista liberal e interseccional. Foi simplesmente parte do meu processo pelo feminismo e, por extensão, da minha vida, virtual e real. Eu mandei pessoas reconhecerem seus privilégios, disse que homens precisavam do feminismo também. Liberal feminismo era o único feminismo que eu conhecia. De fato, eu nunca me proclamei feminista liberal quando eu tinha esse ponto de vista. Eu me chamava simplesmente de ‘feminista’, sem perceber que existiam outras vertentes.

A MENTALIDADE FEMINISTA LIBERAL INTERSECCIONAL

> Empoderadas pela escolha

Todas as escolhas são boas e certas, enquanto são escolhas suas. A agência é suprema. Nós jamais devemos questionar as escolhas de outras pessoas. Nós defenderemos até a morte o direito inalienável de uma pessoa fazer suas próprias escolhas e condenaremos qualquer um que tente analisar essas escolhas em um contexto mais amplo. Como mulheres, toda escolha que fazemos é, por definição, uma escolha feminista, enquanto formos mulheres e estivermos fazendo escolhas. Consequentemente, é feminista usar escarpins ou tornar-se uma “profissional do sexo”. Qualquer um que tente argumentar a respeito de um sistema maior deve ser vaiado em defesa das escolhas individuais.

Se todas as escolhas são boas e feministas, eu sou infalível no que quer que eu escolha. É o meu direito e ninguém tira isso de mim. É individualmente empoderador e justificado.

> Identificação Pessoal

Toda pessoa tem o direito à identificação e ninguém pode questionar a identidade de outrem. Identidade é inata e interna; não pode ser modificada. Identidade é quem você realmente é e sempre foi. É imutável. Questionar a identidade de alguém nunca é aceitável. Identidades devem ser abraçadas, acreditadas, e afirmadas por todos. Qualquer um que não afirme identidades inquestionavelmente será rechaçado.

Eu sou o que quer que eu afirme ser. Eu sou como eu me sinto. Todos devem me aceitar. Eu me sinto empoderada.

> Percebendo seus privilégios

Há um grande e complicado sistema de privilégios. Todos somos privilegiados de certas formas e não de outras. Está por conta de cada um reconhecer seus próprios privilégios e fazer com que outras pessoas reconheçam os seus. Os privilegiados jamais podem questionar os menos privilegiados. Por exemplo, uma mulher branca jamais pode questionar as experiencias ou escolhas de uma mulher negra. Tipos de privilégios incluem, mas não estão limitados a: privilégio masculino, branco, hétero, privilégio de magros, de capacitados, privilégio econômico e privilégio cis.

Eu estou consciente dos meus privilégios e os reconheço frequentemente. Eu chamo atenção das pessoas quando elas não reconhecem seus privilégios. Eu me sinto superior e justa por defender a maior parte dos vulneraveis. Eu condescendo com aqueles que têm menos privilégios que eu e nunca permito que outras pessoas os questione ou às suas experiências. Por eu ser cis, eu nunca posso questionar nada a respeito de ser trans. Eu sou melhor que as pessoas que não reconhecem seus privilégios.

> Feminismo é para todos

Não há nada de exclusionário a respeito do feminismo. Nós incluímos e acomodamos todos. Nós acreditamos que homens precisam do feminismo também. Qualquer um que acredita em igualdade é um feminista, mesmo não sabendo disso ou não abraçando o termo. Mulheres não são o centro do feminismo, nem deveríamos ser. Nós deveríamos todos ser iguais.

Sou mais mente-aberta que a maioria das pessoas e, novamente, sinto-me superior. Sinto que estou ajudando a todos, mesmo que eles não saibam. eles precisam da minha ajuda.

> Gênero

O gênero de uma pessoa é interno e sacrossanto. É o núcleo de nossa toda-poderosa identidade. Gênero é simplesmente o conhecimento inato de quem você é. A identidade de gênero é sabida como imutável. Gênero e sexo nem sempre coincidem. O gênero declarado de uma pessoa trans é seu único gênero, mesmo que ela tenha vivido toda a sua vida até então como alguém de outro gênero. Mulheres trans são mulheres. Mulheres trans são as mulheres mais vulneráveis e são as mais assassinadas e oprimidas. Assim sendo, nós devemos protegê-las acima de todas as outras mulheres. Mulheres cis nunca podem excluir ou questionar mulheres trans, sob quaisquer circunstâncias. Fazê-lo seria o mesmo que mulheres brancas excluirem negras: impensável.

Eu acolho a todos. Eu sou boa e mente-aberta. Eu não sou preconceituosa como as outras pessoas.

TUDO CAI POR TERRA

Eu estava nessa onda até a primavera passada. Eu me sentia bem, e estava me educando acerca dos meus privilégios e protegendo aqueles com menos privilégios. Estava fazendo minhas próprias escolhas e defendendo o direito dos demais fazerem o mesmo. Mas uma coisa continuava me incomodando. Havia uma coisa que eu ainda não entendia:

“O que é uma mulher?”

Eu não conseguia parar de pensar nessa pergunta. Eu perguntei, em privado, a amigas, e descobri que muitas delas estavam confusas também. Eu continuei ouvindo que “mulheres trans SÃO mulheres” e eu queria entender o que isso significava. Eu pensava que havia algo de errado comigo, que não me permitia imediatamente ver isso. Seria eu uma preconceituosa, secretamente, no interior do meu coração? Eu sentia como se estivesse fazendo algo de errado só em me ater a isso, mas esse pensamento não ia embora.

Trepidantemente, fiz essa pergunta todas as vezes que eu tinha chance, mas as respostas que eu tinha não me satisfaziam. Pessoas respondial “bem… como VOCÊ sabe que é uma mulher?”. Mas ao invés de clarificar, isso só me confundia ainda mais. Minha resposta, a qual fui ensinada a nunca dizer, era “eu sei que sou mulher por causa do meu corpo: vulva, útero, peitos. Eu sei porque eu menstruo e posso ficar grávida.” Eu não consigo pensar em uma única característica que torne uma pessoa mulher, a não ser o físico.

Uma mulher deveria ter o poder de ser quem ela quiser, vestir o que ela quiser, e amar quem ela quiser. Ela pode abraçar a femililidade ou evitá-la. Usar um vestido rosa não faz uma mulher mais mulher, e usar roupas confortáveis não faz dela menos mulher.

Durante esse período, eu vi mulheres trans em notícias e eu pensei que se ser mulher é aderir ao papel feminino de gênero, talvez elas sejam mulheres e eu não. Laverne Cox é, com certeza, muito mais estereotipificadamente feminina do que eu sou. Mas eu também não queria mudar meu corpo ou ser vista como um macho. Levou anos para que eu abraçasse e gostasse do meu corpo de mulher, como ele é. A aceitação do corpo tem sido uma parte extremamente libertadora da minha vida e meu corpo inclui as minhas partes femininas. Subitamente, foi se tornando proibido falar sobre o corpo feminino fora das deferências às mulheres trans. Por eu ser considerada “cis” e, dessa maneira, a opressora, eu não tinha permissão de questionar isso.

Eu decidi questionar de qualquer forma. Comecei a perguntar em páginas do facebook de feminismo interseccional quando eu via algo que não entendia. “Se uma mulher pode ser o que ela quiser e também ter um pênis, não é, então, a palavra ‘mulher’ totalmente sem sentido?” “O que significa ‘sentir-se como uma mulher por dentro’?” “se uma pessoa do sexo feminino sente, em seu coração, que é um homem, não seria a ideia da gravidez impensável?”. Fiz essas perguntas e muitas mais. Perguntei inocentemente, sinceramente, sem pretendida malícia, e fui cuidadosa, pisando em ovos. Eu realmente queria entender. Eu queria ter o poder de reconhecer meu “privilégio cis”.

Muitas coisas aconteceram rapidamente quando comecei a fazer essas perguntas. Fui chamada de TERF (feminista radical exclusionária de trans). Eu nunca tinha ouvido falar em feminismo radical a essa altura. Me disseram “uma mulher é quem quer que diga que é uma mulher!” o que só me confundiu ainda mais. Eu pensei sobre a palavra “cis” e decidi que eu não a sentia aplicável a mim, a partir do momento que eu não me identificava com gênero. Me disseram que recusar a palavra cis era “o mesmo que arrastar um ralador de queijo na cara das mulheres trans.” Me mandaram me educar. “Não é nosso papel ensinar você”. E meus comentários eram deletados e meu perfil banido de várias páginas, algumas das quais eu tinha seguido por anos.

Eu estive tentando encontrar na internet respostas para minhas questões por um bom tempo, mas agora eu tinha algo novo para procurar. Eu pesquisei “Feminismo Radical”. Visitei grupos de discussão e descobri a ideia de gênero como um constructo social. As coisas começaram a fazer sentido. Eventualmente, eu encontrei pessoas que me ajudaram e responderam as minhas perguntas, que sugeriram livros, blogs, e artigos para ler. Eu finalmente entendi.

Não tinha nada de errado comigo; eu só não era mais uma feminista liberal.

PREENCHENDO ESPAÇOS EM BRANCO

Eu ainda estou processando tudo isso. Não estou aiqui para explicar a filosofia radical feminista porque há mulheres muito mais conhecedoras do assunto que já o estão fazendo. Existem livros. Eu vou dizer que, tendo convivido com feministas liberais, eu esperava que feministas radicais fossem pessoas preconceituosas e odiosas. Elas não são. Quase todas as radfems que eu conheci se importam profundamente e querem que o mundo seja melhor para todos, mas primeiro e primordialmente para mulheres. Elas não silenciam mulheres por falarmos de nossas próprias experiências.

Olhando para trás, agora eu vejo todas as formas como o femninismo liberal falha com as mulheres, e falhou comigo. Centralizando homens e no que homens querem e jogando mulheres para o segundo plano. Deixando de ser um movimento sobre a melhora da situação das mulheres e passando a ser um movimento apenas sobre indivíduos.

Feminismo liberal raramente considera a história. Eu nunca soube a resposta para outra questão que me atormentava: “por que as coisas são como são?”. As respostas estavam o tempo todo esperando para serem lidas. Há muito para aprender das mulheres feministas que vieram antes de nós, mas ao invés de legitimá-las, o feminismo liberal as deixa de lado e desconsidera seu trabalho. Eu aprendi mais lendo o “A criação do Patriarcado”, de Gerda Lerner, do que durante todo o tempo em que fui liberal.

Não há nenhum reconhecimento de sistemas de opressão sobre as mulheres como classe. Pelo contrário, cada pessoa é colocada em sua bolha individual especial, nunca devendo ser mesclada com outras, nunca considerada como parte de um grupo, e nunca colocada num contexto histórico. As diferenças são o foco, nunca as nossas experiências comuns como mulheres em uma sociedade que vê as mulheres como inferiores aos homens.

Feminismo liberal nunca fala dos benefícios do sistema. Privilégio masculino é apenas uma coisa que os homens devem reconhecer – mas nunca é dito que privilégio masculino existe graças à submissão de mulheres. Nunca leva em consideração que nós não podemos, NÓS TODOS, ser iguais aos homens. Não pode haver uma classe como os homens sem o trabalho e o suporte de uma classe inferior, o que é atualmente assegurado pelas mulheres.

Feminismo liberal não dá importância ao fato de que escolhas não acontecem no vácio. Nós temos que fazer o melhor que pudermos no mundo em que vivemos hoje, mas isso não significa que toda e qualquer escolha seja boa. Mulheres constantemente escolhem o menor dos males, e muitas vezes não queremos que nossas escolhas sejam exaltadas. Muitas vezes, se houvesse outra opção, nos a teríamos tomado. O fracasso na tarefa de ver as nossas escolhas em um contexto mais amplo faz com que o feminismo liberal seja bom para o indivíduo a curto prazo, mas não faça nada para mudar o sistema integralmente. Ele falha com as mulheres mais vulneráveis em favor de uma agência individualista.

Sobretudo, liberal feminismo falha com as mulheres porque nos silencia. Nos diz que os nossos corpos e as nossas experiências de vida não devem ser compartilhadas. Pelo contrário: nós devemos nos anular em prol dos outros, principalmente dos homens.

Houve um ponto em que eu quase desisti completamente do feminismo. Um dia, eu disse “chega!” e deletei cada página e blog da minha história. Mas isso não foi o fim. Agora eu me encontro rodeada de mulheres esclarecidas que são fontes de conhecimento e experiência. Frequentemente me sinto humilhada pela profundidade de seus conhecimentos. Eu também me sinto inspirada. Não sou mais uma mulher solitária em um mundo cujas regras não fazem sentido. Estou aprendendo formas de entender o mundo que oferecem explicações de larga escala. Eu acordei e tenho muito a fazer.

Meu feminismo nunca silenciará mulheres. >>

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