“A ideologia transgênera não acolhe mulheres”, de Miranda Yardley

O original está aqui.

<< A ideologia transgênera está em agitação. Suas ideias centrais são inconsistentes consigo mesmas, têm pouco embasamento científico ou ética em análises de poder, e são tão díspares da realidade que requerem uma completa suspensão das desconfianças para entrarem na cabeça de alguém sem causar desarmonia cognitiva.

Embora eu esteja desenhando uma distinção entre aqueles que são transexuais e aqueles que se identificam como transgêneros, tudo o que vou pontuar se aplica a ambos os grupos.

Aí vão algumas coisas que a ideologia transgênera tem que fazer para que possa amparar a vida das mulheres:

1. Aceitar que feminismo e outros movimentos de mulheres não se focam em pessoas transgêneras, e nem deveriam. No momento, o trans está dominando as discussões, e mesmo causando enormes richas ideologicas dentro do feminismo, aqui mesmo, as notícias do dia do Reino Unido (22 de junho) reportam estatísticas hospitalares mostrando 632 novos casos de mutilação genital feminina no meio oestre (aparentemente garotas “são trazidas a Birmingham para serem mutiladas”) de setembro de 2014 a março de 2015.

2. Aceitar que a identidade de gênero inata é baseada em ideias que têm tênue ligação à ciência empírica é apenas uma conjectura. A reivindicação dos transgêneros pela mulheridade [1] (ou pela masculinidade) depende completamente nesse conceito de identidade de gênero inata, e tirar essa ideia tira do transativismo seu manto de “movimento por direitos civis” defendendo a luta de uma minoria oprimida, e, pelo contrário, revela-o como o lobo do masculinismo travestido, bufando e soprando na cara do feminismo e das mulheres.

3. Aceitar que sexo e gênero não são a mesma coisa. Sexo é uma realidade biológica baseada no potencial reprodutivo, e gênero é um sistema social que prejudica mulheres por meio de comportamentos estereotipificadores, dando às mulheres os estereótipos negativos e aos homens aqueles que são positivos; gêneros, por si mesmos, são opressivos, não uma liberdade civil. Todas as MtF [2] são, por definição biológica, machos, socializados como meninos e normalmente “transicionam” quando adultos, apesar de na conjuntura atual parecer estar se tornando aceitável que crianças “transicionem”, o que deveria ser examinado criticamente ao invés de aceitado incondicionalmente. Que a nossa realidade biológica subjacente permanece fundamentalmente inalterada não é um juízo de valor, é a declaração moralmente neutra de um fato nem bom, nem ruim, que simplesmente é, e ser uma mulher não é um sentimento ou uma opção.

4. Respeitar o feminismo, e isso inclui a Segunda Onda, sem a qual os direitos das mulheres, as estruturas e apoio e as organizações não existiriam. Aceitar que feminismo é sobre e para mulheres e garotas, e não MtF. É errado insistir que feminismo se foque em MtF, isso força a maioria oprimida a centrar seus interesses na parte de classe opressora masculina; mulheres nem oprimem, nem têm privilégio de gênero sobre pessoas trans.

5. Jogar apelos à mulheridade baseada na desacreditada e não fundamentada cientificamente ideia de “cérebro sexuado” [3] é Neurosexismo, e essa ideia sexista tem sido usada para estereotipar e oprimir mulheres por milênios. São nossos corpos que fazem humanos terem dimorfismo sexual, e o “cérebro sexuado” não tem lugar em nenhum movimento moderno por direitos civis.

6. Parar de insistir no apagamento da linguagem específica que descreve mais de 50% da população para satisfazer os egos fráveis de 0,3% da população que é trans. Isso significa respeitar o direito das mulheres de poder descrever seus próprios corpos e experiências livres do inerentemente redundante e coercitivamente imposto “cis”; nós já temos uma palavra para “mulher”: “mulher”. Pênis são o órgão sexual masculino, vaginas são o feminino, e é assim que a reprodução humana acontece.

7. Reconhecer que a vida de pessoas trans é diferente da vida de mulheres e que mulheres têm direito a seus próprios espaços, que devem sempre ser respeitados; não é aceitável atacar, em nome do transativismo, as instituições de mulheres que existem para apoiar mulheres vulneráveis.

8. Ter discussões honestas acerca da autoginecofilia [4]. É um problema real. Atualmente a sua existência é negada, apenar de muitas pessoas trans admitirem-na como uma motivação para sua transição e de a pornografia formar parte central da cultura transgênera. Você não pode lutar genuinamente por direitos de transgêneros enquanto nega que autoginecofilia existe.

9. Aceitar e explicitamente reconhecer que lésbicas são mulheres que sentem atração por mulheres, e não por MtF, e que cotton ceiling [5] é uma coerção sexual por meio de envergonhar lésbicas. Nenhuma lésbica é intolerante, transfóbica ou odiosa por ter fronteiras que excluem MtF. Elas devem ser respeitadas, e aqueles que não as respeitam devem ser aconselhados pelos seus pares, especificamente aqueles que vivem de atividades exploratórias como pornografia. Eles devem também aceitar que a palavra “lésbica” pertence às mulheres.

10. Aceitar que homens e mulheres são socializados de formas fundamentalmente diferentes e que existe a socialização masculina e a socialização feminina. Aceitar que é intolerável abusar ou fazer ameaças de morte a mulheres ou outros MtF na internet. Salientar o problema da violência masculina e parar de culpar mulheres por suas dificuldades, e isso se extende ao uso do acrônimo “TERF”, que é tão usado e tão indiscriminadamente que suas essência e significado são de uma palavra de ódio.

11. Não é problema ter discordâncias com outras, é isso que o discurso e o debate são, e nós podemos fazê-lo sem transformar isso em uma questão de vida ou morte. Não é aceitável calar qualquer debate que você não possa controlar.

12. Aceitar que MtF falham em fazer de “mulheres trans” um subconjunto de mulheres, porque a realidade não é essa. Dizer que “mulheres trans são mulheres” é um apagamento das vidas de reais mulheres e de mulheres trans, e, no máximo, faz com que mulheres trans pareçam incompletas. Mulheres trans realmente se sentem assim? O que realmente significa esse “trans”, se esse termo é verdadeiro? Do mesmo modo, ideias de termos sido “coercitivamente assinalados macho/fêmea ao nascer” imediatamente nos fazem começar num ponto de inferioridade ou defeituosidade. Isso não é auto-aceitação, é uma grosseira negação da realidade.

Mais importante: aqueles que são transgêneros devem aprender a se aceitar como eles são, sem sentir vergonha, e entender que as pessoas às quais eles mais devem, e de quem eles mais podem aprender, são mulheres. >>

[1] No original, “womanhood”. Prefiro usar o neologismo, pois nesse sentido cabe melhor que a palavra “feminilidade”, a qual relaciono aos padrões opressivos de gênero, e não à vivência do ser mulher como um todo.

[2] MtF é a “mulher trans”.

[3] No original, “brain sex”. Dizer que sua mente é mais feminina ou masculina, por exemplo.

[4] Autoginecofilia é a excitação sexual masculina em ter, em si mesmo, corpo de mulher. Entenda mais.

[5] Cotton ceiling “ou teto de algodão é o termo cunhado por transativistas para referirem-se à ‘barreira’ que as trans encontram ao tentarem se relacionar sexualmente com lésbicas. Essa barreira nada mais é do que o que chamamos de consentimento.” (Copiado da página Feministas revolucionárias). Entenda mais.

“A ideologia transgênera não acolhe mulheres”, de Miranda Yardley

“Queridas mulheres brancas”, de Isobel Debrujah

O original está aqui.

<< Eu as vejo. Eu as ouço. Eu leio seus comentários. Eu sei o que vocês pensam porque vocês deixam bem claro.

Se Mike Brown nunca tivesse entrado nessa loja, se Eric Harner tivesse feito só o que lhe mandaram, se Tamir Rice não tivesse permissão de brincar com uma arma de brinquedo, eles estariam todos vivos agora. O que aconteceu com eles foi triste, mas eles causaram isso a eles mesmos, não foi?

Vocês não mostram empatia por Mike Brown, ou Eric Garner, ou pelas outras pessoas negras que a polícia matou. Vocês não mostram empatia a mim, como uma companheira mulher, como uma mulher negra que viu, mais uma vez, seu país falhar.

(Ok, ok. ‪#‎Nemtodasasmulheresbrancas‬. Eu entendi, mas se vocês não estão agindo dessa forma, não estou me referindo a vocês.)

Eu, por outro lado, tenho empatia por vocês. Eu sei de onde vocês vieram. Eu sei. Eu sou uma mulher também, e eu vivo no mesmo mundo, e nesse mesmo país.Foi deixado claro para nós, desde o começo de nossas vidas, que nós não temos valor. Além disso, foi deixado claro para vocês, mulheres brancas, que homens negros são o maior perigo com o qual vocês poderiam se deparar.

Isso não é verdade, mas a mentira é difícil de superar, levando em consideração que isso foi repetido tantas vezes e de tantas formas.

Como eu disse, eu entendo. Eu entendo.
Mas isso não é certo e vocês têm que parar. Vocês precisam alcançar lá no fundo de vocês mesmas empatia tanto para os que estão mortos, quanto para os que estão vivos.

Vocês precisam. Isso não é opcional. Vocês têm que fazer isso para sua própria saúde mental e emocional. Vocês têm que fazer isso para a sua saúde espiritual, se é que vocês acreditam nisso. Vocês têm, porque se não conseguirem, estarão se aliando a seus próprios inimigos.

Isso lhes surpreende?

Não. Desculpem. As pessoas que mais se beneficiam em coisas como essa, não apenas aos oficiais de polícia que estão matando pessoas, mas também aos políticos e cidadãos de bem que assistem à violência contra as pessoas que eles não utilizam como uma ferramenta de controle?

Eles te odeiam também. Eles te odeiam e te machucam.

Não é como se as pessoas que defendem o Darren Wilsons e o Daniel Pantaleos of America estivessem respeitando e valorizando mulheres enquanto desrespeitam e desvalorizam pessoas de cor [1].

Isso não acontece.

Estou dando a cara à tapa aqui e digo que pelo menos algumas das pessoas lendo este texto passaram por relacionamentos abusivos. Porque, você sabe, 60% das mulheres passaram.

Preciso que vocês lembrem como eram esses relacionamentos. Lembrem-se de como era estar no centro deles. Não olhem para trás de uma perspectiva de (espero) maior saúde mental e segurança física. Isso é quem vocês são agora.

Lembrem-se de como eram naquele tempo.

Lembrem-se da pessoa que defendeu e inventou desculpas para seu abusador.

Lembrem-se da mulher que tinha de explicar os hematomas e lágrimas.

Lembrem-se da primeira vez.

Lembrem-se da décima vez.

Lembrem-se da centésima vez.

Lembrem-se.

Agora lembrem do que o abusador disse a vocês.

“Se você não me deixasse com tanta raiva…”

“Se você fizesse as coisas direito…”

“Se você me respeitasse…”

Essa pessoa as convenceu de que vocês eram responsáveis pelo abuso. Convenceu que vocês eram culpadas e só vocês poderiam mudar a situação. Convenceu vocês de que se vocês agissem de determinada forma, a qual ele definia e mudava a seu bel prazer, vocês estariam seguras.

Ele lhes convenceu. É por isso que vocês ficavam.

Por favor, não achem que eu as culpo por terem ficado. Não culpo. Eu sou uma de vocês, não uma mulher branca, mas uma sobrevivente de abuso. Eu fiquei também.

Por muitas razões, eu fiquei, mas a principal era o gaslighting [2]. Eu comprei a ideia de que a minha compreensão de relacionamentos; de que deveriam ser baseados em respeito mútuo e autonomia, em valorizar a humanidade do seu parceiro e trabalhar junto rumo a uma vida melhor, estava errada. Eu me permiti ser convencida de que eu estava esquecendo de todo comentário sarcástico, toda ação deliberadamente ofensiva, todo centavo gasto para nos manter pobres e desesperados.

E eu fiquei, assim como vocês. Não apenas fiquei, como tentei ser menos provocativa.

Tentei ser o que ele queira, porque eu acreditava que os abusos parariam se eu pudesse apenas descobrir a fórmula que me tornasse aceitável e respeitável.

Porque gaslighting funciona. É horrível estar submetida a isso, mas é efetivo. É por isso que eles continuam utilizando-o.

“Você se vestiu que nem uma puta. Se tivesse usado roupas decentes, você estaria bem. Você mereceu.”

“Você não deixou minha janta na mesa. Se soubesse manter uma casa direito, estaria ilesa. Você mereceu.”

“Por que você está chorando? Palavras não machucam. Você é tão emotiva. Você está exagerando. Se você pudesse parar de ser uma vadia doida, você estaria melhor. Você merece.”

E, quer saber? A América vem gaslighteando seus cidadãos negros desde 1619.

Tarryvon era só um bandido. Ele não era uma criança voltando para casa que foi atacada por ser negra e estar na rua. Ele mereceu.

Mike Brown roubou! Ele atacou o policial! Se ele não tivesse cometido um crime, se ele tivesse sido respeitoso com o policial, ele estaria bem. Ele mereceu.

Eric Garner estava vendendo cigarros ilegalmente. Se ele tivesse acatado os três policiais que estavam em volta dele, agredindo-o, depois que ele apartou uma briga e ajudou sua vizinhança. ele estaria bem. Ele mereceu.

Pessoas negras são só bandidos.

Pessoas negras merecem.

Isso não é verdade.

Vocês sabem que não é verdade, assim como não era verdade quando seu abusador tentou gaslightear vocês, culpando-as pelo abuso que sofreram.

Lembra o que aconteceu? O seu abusador mostrou que vocês não poderiam demonstrar, à época, contentamento, porque esse é o ponto do abuso: o abusador sentir seu poder sobre ti, ou ele vai dobrar o gaslighting.

Eles fizeram tudo girar em torno deles. Eles disseram quanto machucar vocês machuca eles. Ou talvez eles nem sequer tenham admitido que machucaram. Quem sabe, era só mais um exemplo de vocês agindo feito “loucas”. Oh, eles eram tão bons que ficaram e aguentaram esse tipo de insanidade. Vocês não estão gratas? Não sentem empatia pela dor deles?

Vocês sabem o que é verdade? Vocês não apenas não merecem ser abusadas, como também mereciam um relacionamento saudável e respeitoso.

Não abusivo é o mínimo absoluto que uma pessoa deveria, razoavelmente, esperar de uma interação com outro ser humano. Isso se aplica a relacionamentos entre indivíduos e interações entre a sociedade e os cidadãos que fazem parte dela.

Ou melhor: claramente não é, mas deveria ser.

Agora quero que vocês lembrem de outra coisa. Lembrem dos momentos em que vocês não podiam aguentar mais, mas aguentaram.

Não o momento em que vocês decidiram ir embora, estamos chegando aí. Estou falando do momento em que vocês meio que passaram por cima de seu abusador por um instante e o convenceram, de algum jeito, que talvez ele não devesse abusar de vocês tão constantemente e ostensivamente.

Os abusos não acabaram, é claro, mas você deve ter tido um momento ou uma semana ou um mês de trégua. Houve um período no qual, ao invés de gritar nas suas caras que vocês são putas traidoras, e lhes socar, seu abusador apenas leu suas mensagens de texto e lhes stalkeou.

Não era bom, mas não era tão ruim quanto antes, então parecia bom. Vocês o forçaram a dar um passo para trás e atenuar o pior do abuso, e isso as fez sentir poderosas e no controle. Isso também criou uma situação em que vocês estavam aceitando melhor “menos” abuso.

Sim, abuso distorce suas percepções. Porque que porra é “menos abuso”? Eu digitei isso e nem sei direito o que é.

O abuso distorceu as percepções de negros americanos ao ponto em que a falta de respeito e reconhecimento de nossa humanidade parecia boa, enquanto tivéssemos acesso a balcões de almoço e não tivéssemos que sentar na traseira do ônibus.

Nós nos convencemos de que não ser abusados ao extremo era o mesmo que não ser, de todo, abusados. Mas estávamos errados.

Assim como você estava errada quando acreditou que ser stalkeada era o mesmo que não ser abusada.

É, todos estávamos errados.

Por quê? Porque ficamos presos à ideia de que o relacionamento, fosse pessoal ou social, era o melhor que poderíamos ter.

E não é culpa nossa. É uma extensão do gaslighting. É isso que ouvimos e ouvimos, várias vezes, em gritos e sussurros, com socos e balas, até que acreditássemos.

Agora quero te lembrar do momento em que você cansou.

Seja qual for, qualquer coisa ou pensamento ou sentimento que te levou a dar um basta, e primeiro quero dizer que fico feliz. Espero que você esteja mais saudável agora. Espero que esteja feliz. Espero que esteja segura.

Segundo, eu aposto que o momento em que soubemos que tínhamos que ir embora foi bastante similar para todas nós. Não importa como ele nos parece agora, em seu núcleo, esse momento foi aquele em que nós paramos de comprar o conceito de que um pouquinho menos abusada era o mesmo que saudável e feliz e segura.

É nesse momento que vocês souberam que têm valor, que têm direito a serem respeitadas, que vocês merecem algo melhor.

Deixem-me repetir:

VOCÊS MERECEM ALGO MELHOR.

E nós também.

Vocês merecem viver felizes, saudáveis e seguras.

Nós também.

Vocês acordaram e se valorizaram o suficiente para ir embora, ou correr, daquele ambiente insalubre e inseguro.

Nós também acordamos, mas não podemos simplesmente dar o fora de nosso país.

Digo, algumas pessoas podem, mas essas pessoas já o fizeram porque elas tinham dinheiro para isso.

Para o resto de nós, enquanto apreciamos o fato de que não temos mais que sentar no fundo do ônibus, que America parou com os abusos maiores e mais visíveis, os abusos menores e mais traiçoeiros continuam. É a sociedade americana lendo nossos textos e nos stalkeando. Não é algo saudável. Não é seguro. Não é o tipo de vida que merecemos.

Nós merecemos mais.

Não merecemos ser criminalizados por existirmos.

Merecemos os mesmos passos básicos que o sistema de justiça diz que são nossos por direito.

Não merecemos ser sumariamente execurados porque fomos acusados de um crime.

Merecemos ser capazes de arrumar nossos cintos para alcançar nossos celulares sem o mundo todo agir como se isso fosse uma ameaça.

Nós merecemos, assim como vocês não mereciam ser abusadas.

Todo mundo merece uma vida sem abusos, e quando vocês, mulheres brancas com quem eu posso normalmente contar como minhas aliadas em lutas contra os 1% e a misoginia ou por direitos de minorias de gênero e igualdade marital, se recusam a ficar do meu lado nesse problema da raça e do valor dado às pessoas negras na America, vocês se aliam com meus abusadores.

Vocês se tornam iguais às pessoa que as ferem.

Vocês nos ferem com a sua indiferença e sua disposição para nos gaslightear.

Vocês nos ferem com o seu daltonismo e sua insistência de que nossa dor, a dor que negros americanos dividem, tem tão pouco valor que nós não podemos nomeá-la. Vocês nos ferem quando balançam o dedo e dizem que todas as vidas importam, e que eu não deveria me concentrar em “apenas” a vida dos negros.

Vocês nos ferem quando balançam suas cabeças perante a violência em Ferguson e ignora os 100 dias de protestos pacíficos que precederam-na, e quando vocês ignoram as provocações descaradas das figuras de autoridade nessa comunidade.

Quando vocês agem assim, quando menosprezam nossa dor, quando tentam cooptá-la e torná-la sua, quando nos dizem que merecemos os abusos que são despejados sobre nós, isso me choca. De raiva. De decepção. Tanto que eu nem consigo respirar.

Isso me choca porque eu sei que vocês podem ser melhores que isso. Se que, como uma companheira sobrevivente, esse abuso não é algo fácil de lidar. Não é algo fácil de deixar para trás. Eu sei que vocês podem agir melhor que isso, em sua vida diária, em conversas e online.

Eu sei que vocês têm a força e a integridade de calar pessoas quando elas começarem a agir igual àqueles que nos abusaram.

Eu sei que vocês tem a habilidade de olhar indignada, silenciosamente, em direção a alguém, até que essa pessoa pare de tentar convencer vocês e a todo mundo que estiver ouvindo que Tamir Rice merecia ser assassinado por brincar com uma arma de brinquedo.

Eu sei que vocês têm força suficiente para perguntar por que importa que Mike Brown posse ter roubado alguns cigarros, e pontuar que roubo não é um crime pelo qual alguém possa ser executado neste país.

Você tem a responsabilidade de falar em espaços nos quais a minha voz, e as vozes de pessoas como eu, que são mais diretamente impactadas pelo racismo, nunca serão ouvidas.

Eu sei que você pode fazer isso porque pensar de outra forma diminuiria alguém de força, que aguentou tanta coisa, e eu não quero fazer isso com você.

Acredito que você fará isso porque acreditar em outra coisa traz de volta o sentimento de choque e decepção, e justa raiva, e isso não me deixa respirar. >>

[1] “People of color”. Tradução literal. Refere-se a negros e demais minorias raciais.

[2] no google: gaslighting é usado para se referir a qualquer tentativa de fazer outra pessoa duvidar de seu senso de realidade. O agressor levanta informações falsas com a intenção de causar duvida na vitima. A vitima passa a duvidar de suas próprias memórias, percepção e sanidade.

“Queridas mulheres brancas”, de Isobel Debrujah

“Eu sou cis?”, de Rebecca Reilly

O original está aqui.

<< Eu sou mulher. Isso é algo que eu nunca questionei. É algo que eu sei com certeza quase absoluta.

Há alguns anos atrás, se você me perguntasse como eu sei que sou mulher – depois de parar de te olhar atonitamente por ter perguntado algo tão estúpido, eu tenho certeza de que eu teria te respondido algo a respeito da minha fisiologia, da minha biologia. Eu teria mencionado minhas características sexuais secundárias: o fato de eu ter seios e vagina; o fato de que eu menstruo, e a partir disso posso inferir que tenho ovários e útero; o fato de que eu tendo a ter muita gordura corporal nas nádegas, coxas e quadris. Isso seria uma resposta em parte empírica, apelando a uma descrição científica de quais caracteres definem as fêmeas da espécie humana, e em parte linguística, confiando no pressuposto de que a palavra “mulher” tem um amplamente difundido e coletivamente compreendido significado: uma fêmea humana adulta.

Nos últimos anos, eu li muito mais escritos feministas do que lera anteriormente, e fiquei bem mais imersa em teorias contemporâneas acerca de gênero. Agora eu sei que, para algumas pessoas, essa resposta para a pergunta “como você sabe que é uma mulher?” poderia ser inaceitável. Seria apontado que esses fatos biológicos nem são necessários, nem suficientes para me fazer concluir que eu sou mulher, porque algumas mulheres não têm seios ou vagina, e algumas pessoas que têm seios ou vagina não são mulheres. Então que resposta eu deveria dar a essa pergunta? A única resposta que faz qualquer sentido para mim é dizer que eu sei que eu sou mulher porque todo mundo que eu conheço me trata como tal, e sempre tratou. Quando eu nasci, meus pais me deram um nome que só é dado a garotas. Se referiram a mim usando pronomes femininos, e os demais seguiram o exemplo. Eles me vestiram em roupas que a nossa cultura julga apropriadas para meninas, e deixaram meu cabelo crescer. Com o meu desenvolvimento, aqueles que eu conheci tomaram esses sinais como uma evidência de que eu era uma menina – e, mais tarde, uma mulher – e me trataram conformemente a isso. Eu era elogiada e recompensada quando agia de formas consideradas tipicamente femininas, e me deparava com desaprovação social e recriminação quando meu comportamento era mais masculino. Isso é o que as feministas chamam de socialização feminina, e a manifestação desse fenômeno é infindável e onipresente. Então, se eu tivesse que explicar que sei que sou uma mulher sem fazer referência ao meu corpo feminino, eu diria: “sei que sou mulher porque todo mundo me trata como uma”.

Algo que eu aprendi com a vanguarda contemporânea das lutas de gênero é que eu não sou apenas uma mulher; aparentemente, sou uma mulher “cisgênera”. Ser cisgênera, ou cis, é considerado uma forma de privilégio estrutural, e, portanto, eu tenho privilégios em relação àqueles que não são cis. Quando eu me deparei com essa palavra pela primeira vez, informaram-me de que ela simplesmente significa “não-trans”, e tem a mesma função que a palavra “heterossexual” – a de rotular o grupo majoritário para que não seja considerado a norma em contraposição à qual os outros seriam considerados “desvios”. Todo mundo tem uma orientação sexual, e todos nós devemos ter uma forma de descrevê-la, não apenas as pessoas cuja orientação faz delas uma minoria. Parece ser uma finalidade racional e louvável para existir tal palavra, então quando eu a encontrei, eu me senti contente em me chamar “cis”. Mas será que eu realmente sou cisgênera? Esse é um termo que, significativamente, pode ser aplicado a mim – ou, de fato, a qualquer pessoa?

Eu estava feliz em me proclamar cis, se isso significasse não-trans, porque eu supus que eu não era trans. Eu presumi que não era trans porque eu não tenho disforia acerca das minhas partes sexuais – eu posso viver em meu corpo feminino sem desconforto, sofrimento ou angústia. Sinceramente, isso não é verdade, e eu desconfio que não é para a maioria das mulheres. Sendo uma mulher crescida em uma cultura que constantemente bombardeia mulheres com a mensagem de que seus corpos são inaceitáveis, mesmo repugnantes, eu sinto enorme aflição e incômodo vivendo em meu corpo feminino, de uma forma que moldou minha vida e continha a moldar diariamente. O que eu realmente quero dizer é que eu nunca senti como se caso eu tivesse um corpo de homem o descorforto e a infelicidade que eu sentia por ter um corpo feminino fossem diminuir. Mesmo meu corpo corpo feminino sendo uma fonte contínua de vergonha e sofrimento para mim, eu nunca senti necessidade de modificá-lo para torná-lo menos feminino, de me submeter a tratamentos ou cirurgia para fazer meu corpo mais parecido com um corpo masculino. Desse modo, eu cria que não era trans. E, não sendo trans, eu deveria ser cis.

Contudo, para muitas pessoas isso não é realmente o que significa ser cis, porque também não é bem isso que significa ser trans. Erroneamente, entendi que, para ser trans, a pessoa deveria passar pelo nível da experiência que é chamada de disforia de gênero, mas seria melhor chamada de disforia de sexo – um sentimento de aflição e angústia causado por viver em um corpo de determinado sexo. Contudo, o variável discurso dentro das políticas dos transgêneros insiste que disforia não deveria ser fator necessário para alguém ser considerado trans; você pode ser trans, mesmo se você está perfeitamente confortável e feliz no corpo em que você nasceu, e não tem qualquer desejo de modificá-lo. O que foi, logicamente, uma surpresa para mim, e extremamente significante, porque, se cis significa não-trans, então precisamos saber o que trans significa. E desconfio que a maioria das pessoas vai ter compartilhado do pressuposto que o conceito envolve disforia causada pelas partes sexuais do corpo. Então o que deveria ser “trans”, senão isso?

O termo “transgênero” parece ser utilizado em uma variedade de formas diferentes e entendido por pessoas diferentes como coisas diferentes. Uma definição popular diz que “transgênero é um termo guarda-chuva para pessoas cuja identidade de gênero difere do que é tipicamente associadocom o sexo ao qual elas foram assinaladas ao nascer”. Isso pressupõe a existência de algo chamado de “identidade de gênero”, o que é comumente definido como algo do tipo: “a percepção interna e pessoal de uma pessoa ser mulher ou homem”, ou “a sensação particular e subjetiva experiência de seu próprio gênero”. Então pessoas trans são trans porque há uma não correspondência entre o seu senso interno do próprio gênero e as normas de gênero que são normalmente associadas com o sexo com o qual elas nasceram.

Talvez algumas pessoas tenham identidade de gênero. Talvez algumas pessoas tenham um senso interno de seu gênero, um subjetivo e pessoal sentimento de que são homens ou mulheres, e talvez eles possam descrevem e dar sentido a tudo isso sem fazer referência seja à sua fisiologia, seja às normas socialmente construidas sobre como pessoas com tais corpos deveriam se comportar. Mas sinceramente eu não tenho isso. Eu não tenho um senso interno do meu gênero. Se você me perguntar como eu sei que sou mulher, vou ter de fazer referência tanto às minhas características sexuais secundárias femininas, tanto às implicações sociais de ser lida como uma pessoa que tem essas características. Eu não vivo meu gênero como uma essência interna, uma profunda e imutável faceta de minha identidade. Talvez algumas pessoas vivam, embora eu esteja cética sobre como eles poderiam descrever e explicar isso sem fazer referência a papeis de gênero socialmente impostos. Mas eu posso admitir para fins de argumento que algumas pessoas sejam capazes de experienciar uma forma de estado mental subjetivo que eu não sou.

Estaria tudo bem, se eu tivesse permissão de negar que tenho uma identidade de gênero. Mas eu não tenho. A proposta do rótulo “cis” é demonstrar que ser trans não é anormal ou desviante, mas apenas uma das muitas formas de identidade de gênero que todas as pessoas têm. A fim de performar a função que essa palavra tem, cis deve ser um rótulo que se refere à presença de uma forma específica de identidade de gênero, não a ausência de uma. Ser trans é ter uma identidade de gênero, uma que difere daquelas tipicamente associadas com o sexo ao qual você foi assinalado ao nascer. E se você não é trans, você é cis, o que também é uma identidade de gênero. E se as pessoas trans têm uma identidade de gênero que difere das normas de gênero relativas ao seu sexo, então presumivelmente pessoas cis têm um senso interno de seu gênero que é amplamente alinhado com as normas de gênero associadas ao sexo com o qual nasceram.

Mas eu não tenho um profundo e pessoal sentimento a respeito do meu próprio gênero. Existem coisas que eu gosto de fazer e vestir. E, é claro, muitas das coisas que eu gosto de fazer e vestir são coisas tipicamente alinhadas com a feminilidade. Mas eu não comecei a gostar dessas coisas em um vácuo social e cultural, e sim sobre um plano de fundo de mensagens de poder social sobre quais tipo de coisas mulheres devem gostar, então não é surpresa que eu viesse a gostar de algumas dessas coisas. E, mesmo assim, eu não acho que essas coisas reflitam em algo profundo, essencial ou natural acerca da minha identidade. São apenas meus gostos e preferências. Se eu tivesse crescido em uma cultura diferente, eu poderia ter gostos diferentes, mas eu seria basicamente a mesma pessoa.

Além do mais, bem como as outras pessoas, um monte das coisas que eu gosto de fazer e vestir não são coisas estereotipicamente femininas. Um monte das coisas de que eu gosto e desfruto são coisas usualmente vistas como masculinas. Assim como todo mundo, eu não sou um estereótipo de gênero unidimensional, e assim como há alguns aspectos do que é tradicionalmente associado à feminilidade que eu gosto e nos quais me insiro, existem muitos outros que eu rejeito por serem dolorosos, opressivos e limitadores. Mesmo nessas ocasiões, quando eu conscientemente e deliberadamente performo feminilidade, usando maquiagem ou roupas tipicamente femininas, eu não vejo isso como a minha expressão de identidade de gênero; antes estou me conformando (talvez mesmo quando simultaneamente modificando e desafiando) uma ideia socialmente construida do que é uma mulher. Além disso, uma vez que esses aspectos são dissociados do tradicional, normas restritivas sobre o que é apropriado para pessoas de diferentes sexos fazerem, não fica claro por que faria sentido chamar qualquer uma dessas coisas de “gênero”, em oposição a apenas “coisas das quais eu gosto” ou “minha personalidade”.

É provavelmente devido à percepção de que muitas pessoas não se identificam incondicional e inquestionavelmente com normas de gênero tipicamente atribuidas ao seu sexo que todo um leque de outras identidades de gênero emergiu – se você não tem um profundo senso interno de ser homem ou mulher, você pode se identificar como não-binário, genderqueer ou pangênero, o que te permite se identificar com os aspectos de ambos os tradicionais gêneros, com a masculinidade e a feminilidade que você aprova e possui, e rejeitar o resto. (Não está claro se não-binários e genderqueers devem ser considerados como parte do guarda-chuva trans ou não: opiniões parecem estar divididas nesse assunto). Mais uma vez: estou cética sobre como se poderia fazer parecer que isso é uma profundamente arraigada e inalterável identidade, porque qualquer descrição da identidade de gênero de uma pessoa não-binária tem, inevitavelmente, que fazer referência a socialmente construidos papeis de gênero (e é notável que a maior parte dos não-binários machos demonstram isso ao experimentarem roupas e aparência femininas, ao invés de terem um desejo insaciável de fazer as tarefas domésticas tipicamente associadas com a feminilidade). Mas quem sabe realmente existam pessoas que têm um profundo, pessoal e privado sentimento acerca de seu gênero, como uma essência que é também masculina e feminina, ou nenhuma das duas coisas, de forma significativamente diferente de “não ser um estereótipo de gênero unidimensional”. Mas eu não sou uma delas. A despeito do fato de que eu aceito alguns poucos de masculinidade e feminilidade, e rejeito outros, eu não me proclamo genderqueer ou não-binária, porque nenhuma das duas coisas representa uma essência profunda e inalterável, ou uma faceta de minha identidade. Então, não sendo trans, e não sendo não-binária ou genderqueer, me dizem que, por definição, eu sou cis.

Então a única opção disponível para mim, se eu quero rejeitar o rótulo cis, é escolher alguma outra identidade de gênero. Não tenho permissão de negar a existência de uma identidade de gênero por complero. Mas isso é, por si só, opressivo. E afirma falsamente sobre a experiência subjetiva de muitas pessoas – pessoas como eu, que não sentem que têm um profundo e interno sentimento acerca de seu próprio gênero, e cujas experiências primárias de gênero foram de um coercitivo e externamente imposto conjunto de restrições, ao invés de um aspecto essencial de sua identidade pessoal. Isso nos força a nos definir de maneiras que não aceitamos (e, como eu estou aprendendo agora, a recusa de nos definir dessa forma está relacionada com intolerância e falta de empatia por pessoas trans, e não com uma rejeição razoável do que “cis” acarreta). Se “cisgênero” fosse uma descrição de condição médica, caracterizada pela ausência de disforia acerca de seu sexo, então eu aceitaria que sou cis. Mas se cisgênero é uma identidade, o que realmente parece ser, então não sou cis, porque não tenho identidade de gênero. Eu sou uma mulher. Mas não porque, no fundo, eu me sinta como uma. No fundo, eu só me sinto como um ser humano. >>

“Eu sou cis?”, de Rebecca Reilly

“Saindo do feminismo liberal”, de Kate Leigh

O original está aqui

<< Eu não poderia dizer quando realmente comecei a seguir uma filosofia feminista liberal e interseccional. Foi simplesmente parte do meu processo pelo feminismo e, por extensão, da minha vida, virtual e real. Eu mandei pessoas reconhecerem seus privilégios, disse que homens precisavam do feminismo também. Liberal feminismo era o único feminismo que eu conhecia. De fato, eu nunca me proclamei feminista liberal quando eu tinha esse ponto de vista. Eu me chamava simplesmente de ‘feminista’, sem perceber que existiam outras vertentes.

A MENTALIDADE FEMINISTA LIBERAL INTERSECCIONAL

> Empoderadas pela escolha

Todas as escolhas são boas e certas, enquanto são escolhas suas. A agência é suprema. Nós jamais devemos questionar as escolhas de outras pessoas. Nós defenderemos até a morte o direito inalienável de uma pessoa fazer suas próprias escolhas e condenaremos qualquer um que tente analisar essas escolhas em um contexto mais amplo. Como mulheres, toda escolha que fazemos é, por definição, uma escolha feminista, enquanto formos mulheres e estivermos fazendo escolhas. Consequentemente, é feminista usar escarpins ou tornar-se uma “profissional do sexo”. Qualquer um que tente argumentar a respeito de um sistema maior deve ser vaiado em defesa das escolhas individuais.

Se todas as escolhas são boas e feministas, eu sou infalível no que quer que eu escolha. É o meu direito e ninguém tira isso de mim. É individualmente empoderador e justificado.

> Identificação Pessoal

Toda pessoa tem o direito à identificação e ninguém pode questionar a identidade de outrem. Identidade é inata e interna; não pode ser modificada. Identidade é quem você realmente é e sempre foi. É imutável. Questionar a identidade de alguém nunca é aceitável. Identidades devem ser abraçadas, acreditadas, e afirmadas por todos. Qualquer um que não afirme identidades inquestionavelmente será rechaçado.

Eu sou o que quer que eu afirme ser. Eu sou como eu me sinto. Todos devem me aceitar. Eu me sinto empoderada.

> Percebendo seus privilégios

Há um grande e complicado sistema de privilégios. Todos somos privilegiados de certas formas e não de outras. Está por conta de cada um reconhecer seus próprios privilégios e fazer com que outras pessoas reconheçam os seus. Os privilegiados jamais podem questionar os menos privilegiados. Por exemplo, uma mulher branca jamais pode questionar as experiencias ou escolhas de uma mulher negra. Tipos de privilégios incluem, mas não estão limitados a: privilégio masculino, branco, hétero, privilégio de magros, de capacitados, privilégio econômico e privilégio cis.

Eu estou consciente dos meus privilégios e os reconheço frequentemente. Eu chamo atenção das pessoas quando elas não reconhecem seus privilégios. Eu me sinto superior e justa por defender a maior parte dos vulneraveis. Eu condescendo com aqueles que têm menos privilégios que eu e nunca permito que outras pessoas os questione ou às suas experiências. Por eu ser cis, eu nunca posso questionar nada a respeito de ser trans. Eu sou melhor que as pessoas que não reconhecem seus privilégios.

> Feminismo é para todos

Não há nada de exclusionário a respeito do feminismo. Nós incluímos e acomodamos todos. Nós acreditamos que homens precisam do feminismo também. Qualquer um que acredita em igualdade é um feminista, mesmo não sabendo disso ou não abraçando o termo. Mulheres não são o centro do feminismo, nem deveríamos ser. Nós deveríamos todos ser iguais.

Sou mais mente-aberta que a maioria das pessoas e, novamente, sinto-me superior. Sinto que estou ajudando a todos, mesmo que eles não saibam. eles precisam da minha ajuda.

> Gênero

O gênero de uma pessoa é interno e sacrossanto. É o núcleo de nossa toda-poderosa identidade. Gênero é simplesmente o conhecimento inato de quem você é. A identidade de gênero é sabida como imutável. Gênero e sexo nem sempre coincidem. O gênero declarado de uma pessoa trans é seu único gênero, mesmo que ela tenha vivido toda a sua vida até então como alguém de outro gênero. Mulheres trans são mulheres. Mulheres trans são as mulheres mais vulneráveis e são as mais assassinadas e oprimidas. Assim sendo, nós devemos protegê-las acima de todas as outras mulheres. Mulheres cis nunca podem excluir ou questionar mulheres trans, sob quaisquer circunstâncias. Fazê-lo seria o mesmo que mulheres brancas excluirem negras: impensável.

Eu acolho a todos. Eu sou boa e mente-aberta. Eu não sou preconceituosa como as outras pessoas.

TUDO CAI POR TERRA

Eu estava nessa onda até a primavera passada. Eu me sentia bem, e estava me educando acerca dos meus privilégios e protegendo aqueles com menos privilégios. Estava fazendo minhas próprias escolhas e defendendo o direito dos demais fazerem o mesmo. Mas uma coisa continuava me incomodando. Havia uma coisa que eu ainda não entendia:

“O que é uma mulher?”

Eu não conseguia parar de pensar nessa pergunta. Eu perguntei, em privado, a amigas, e descobri que muitas delas estavam confusas também. Eu continuei ouvindo que “mulheres trans SÃO mulheres” e eu queria entender o que isso significava. Eu pensava que havia algo de errado comigo, que não me permitia imediatamente ver isso. Seria eu uma preconceituosa, secretamente, no interior do meu coração? Eu sentia como se estivesse fazendo algo de errado só em me ater a isso, mas esse pensamento não ia embora.

Trepidantemente, fiz essa pergunta todas as vezes que eu tinha chance, mas as respostas que eu tinha não me satisfaziam. Pessoas respondial “bem… como VOCÊ sabe que é uma mulher?”. Mas ao invés de clarificar, isso só me confundia ainda mais. Minha resposta, a qual fui ensinada a nunca dizer, era “eu sei que sou mulher por causa do meu corpo: vulva, útero, peitos. Eu sei porque eu menstruo e posso ficar grávida.” Eu não consigo pensar em uma única característica que torne uma pessoa mulher, a não ser o físico.

Uma mulher deveria ter o poder de ser quem ela quiser, vestir o que ela quiser, e amar quem ela quiser. Ela pode abraçar a femililidade ou evitá-la. Usar um vestido rosa não faz uma mulher mais mulher, e usar roupas confortáveis não faz dela menos mulher.

Durante esse período, eu vi mulheres trans em notícias e eu pensei que se ser mulher é aderir ao papel feminino de gênero, talvez elas sejam mulheres e eu não. Laverne Cox é, com certeza, muito mais estereotipificadamente feminina do que eu sou. Mas eu também não queria mudar meu corpo ou ser vista como um macho. Levou anos para que eu abraçasse e gostasse do meu corpo de mulher, como ele é. A aceitação do corpo tem sido uma parte extremamente libertadora da minha vida e meu corpo inclui as minhas partes femininas. Subitamente, foi se tornando proibido falar sobre o corpo feminino fora das deferências às mulheres trans. Por eu ser considerada “cis” e, dessa maneira, a opressora, eu não tinha permissão de questionar isso.

Eu decidi questionar de qualquer forma. Comecei a perguntar em páginas do facebook de feminismo interseccional quando eu via algo que não entendia. “Se uma mulher pode ser o que ela quiser e também ter um pênis, não é, então, a palavra ‘mulher’ totalmente sem sentido?” “O que significa ‘sentir-se como uma mulher por dentro’?” “se uma pessoa do sexo feminino sente, em seu coração, que é um homem, não seria a ideia da gravidez impensável?”. Fiz essas perguntas e muitas mais. Perguntei inocentemente, sinceramente, sem pretendida malícia, e fui cuidadosa, pisando em ovos. Eu realmente queria entender. Eu queria ter o poder de reconhecer meu “privilégio cis”.

Muitas coisas aconteceram rapidamente quando comecei a fazer essas perguntas. Fui chamada de TERF (feminista radical exclusionária de trans). Eu nunca tinha ouvido falar em feminismo radical a essa altura. Me disseram “uma mulher é quem quer que diga que é uma mulher!” o que só me confundiu ainda mais. Eu pensei sobre a palavra “cis” e decidi que eu não a sentia aplicável a mim, a partir do momento que eu não me identificava com gênero. Me disseram que recusar a palavra cis era “o mesmo que arrastar um ralador de queijo na cara das mulheres trans.” Me mandaram me educar. “Não é nosso papel ensinar você”. E meus comentários eram deletados e meu perfil banido de várias páginas, algumas das quais eu tinha seguido por anos.

Eu estive tentando encontrar na internet respostas para minhas questões por um bom tempo, mas agora eu tinha algo novo para procurar. Eu pesquisei “Feminismo Radical”. Visitei grupos de discussão e descobri a ideia de gênero como um constructo social. As coisas começaram a fazer sentido. Eventualmente, eu encontrei pessoas que me ajudaram e responderam as minhas perguntas, que sugeriram livros, blogs, e artigos para ler. Eu finalmente entendi.

Não tinha nada de errado comigo; eu só não era mais uma feminista liberal.

PREENCHENDO ESPAÇOS EM BRANCO

Eu ainda estou processando tudo isso. Não estou aiqui para explicar a filosofia radical feminista porque há mulheres muito mais conhecedoras do assunto que já o estão fazendo. Existem livros. Eu vou dizer que, tendo convivido com feministas liberais, eu esperava que feministas radicais fossem pessoas preconceituosas e odiosas. Elas não são. Quase todas as radfems que eu conheci se importam profundamente e querem que o mundo seja melhor para todos, mas primeiro e primordialmente para mulheres. Elas não silenciam mulheres por falarmos de nossas próprias experiências.

Olhando para trás, agora eu vejo todas as formas como o femninismo liberal falha com as mulheres, e falhou comigo. Centralizando homens e no que homens querem e jogando mulheres para o segundo plano. Deixando de ser um movimento sobre a melhora da situação das mulheres e passando a ser um movimento apenas sobre indivíduos.

Feminismo liberal raramente considera a história. Eu nunca soube a resposta para outra questão que me atormentava: “por que as coisas são como são?”. As respostas estavam o tempo todo esperando para serem lidas. Há muito para aprender das mulheres feministas que vieram antes de nós, mas ao invés de legitimá-las, o feminismo liberal as deixa de lado e desconsidera seu trabalho. Eu aprendi mais lendo o “A criação do Patriarcado”, de Gerda Lerner, do que durante todo o tempo em que fui liberal.

Não há nenhum reconhecimento de sistemas de opressão sobre as mulheres como classe. Pelo contrário, cada pessoa é colocada em sua bolha individual especial, nunca devendo ser mesclada com outras, nunca considerada como parte de um grupo, e nunca colocada num contexto histórico. As diferenças são o foco, nunca as nossas experiências comuns como mulheres em uma sociedade que vê as mulheres como inferiores aos homens.

Feminismo liberal nunca fala dos benefícios do sistema. Privilégio masculino é apenas uma coisa que os homens devem reconhecer – mas nunca é dito que privilégio masculino existe graças à submissão de mulheres. Nunca leva em consideração que nós não podemos, NÓS TODOS, ser iguais aos homens. Não pode haver uma classe como os homens sem o trabalho e o suporte de uma classe inferior, o que é atualmente assegurado pelas mulheres.

Feminismo liberal não dá importância ao fato de que escolhas não acontecem no vácio. Nós temos que fazer o melhor que pudermos no mundo em que vivemos hoje, mas isso não significa que toda e qualquer escolha seja boa. Mulheres constantemente escolhem o menor dos males, e muitas vezes não queremos que nossas escolhas sejam exaltadas. Muitas vezes, se houvesse outra opção, nos a teríamos tomado. O fracasso na tarefa de ver as nossas escolhas em um contexto mais amplo faz com que o feminismo liberal seja bom para o indivíduo a curto prazo, mas não faça nada para mudar o sistema integralmente. Ele falha com as mulheres mais vulneráveis em favor de uma agência individualista.

Sobretudo, liberal feminismo falha com as mulheres porque nos silencia. Nos diz que os nossos corpos e as nossas experiências de vida não devem ser compartilhadas. Pelo contrário: nós devemos nos anular em prol dos outros, principalmente dos homens.

Houve um ponto em que eu quase desisti completamente do feminismo. Um dia, eu disse “chega!” e deletei cada página e blog da minha história. Mas isso não foi o fim. Agora eu me encontro rodeada de mulheres esclarecidas que são fontes de conhecimento e experiência. Frequentemente me sinto humilhada pela profundidade de seus conhecimentos. Eu também me sinto inspirada. Não sou mais uma mulher solitária em um mundo cujas regras não fazem sentido. Estou aprendendo formas de entender o mundo que oferecem explicações de larga escala. Eu acordei e tenho muito a fazer.

Meu feminismo nunca silenciará mulheres. >>

“Saindo do feminismo liberal”, de Kate Leigh