“O que nos faz mulheres?”, de Elinor Burkett

O original está aqui.

<< Mulheres e homens têm cérebros diferentes?

Quando Lawrence H. Summers era presidente da universidade de Harvard e sugeriu que tivessem, a reação foi rápida e impiedosa. Especialistas tacharam-no de machista. Membros do corpo docente consideraram-no um troglodita. O alunado suspendeu doações.

Mas quando Bruce Jenner disse quase a mesma coisa numa entrevista em abril, com Diane Sawyer, ele foi tratado como celebridade pela sua bravura e atitude progressista. “Meu cérebro é muito mais feminino do que masculino”, disse ele, explicando como sabia que era transexual.

Este foi o prelúdio pra uma sessão de fotos e entrevista na revista Vanity Fair, que nos ofereceu um vislumbre da ideia de Caitlyn Jenner do que significa ser uma mulher: um espartilho decotado, poses sensuais, bastante rímel, e a promessa de futuras e regulares “girls nights”, com muita brincadeira de cabelo e maquiagem. A Sra. Jenner foi saudada com aplausos ainda mais estrondosos. A ESPN anunciou que daria a ela um prêmio pela sua coragem. O presidente Obama também a elogiou. Para não ficar pra trás, Chelsea Manning (militar trans famosa dos EUA) pulou nesse trem de identidade de gênero de Bruce Jenner, e postou no Twitter, bradando: “Eu estou muito mais consciente das minhas emoções; muito mais sensível emocionalmente (e fisicamente)”.

Fiz uma careta por dentro.

Eu lutei durante grande parte dos meus 68 anos contra esforços para colocar mulheres – nossos cérebros, nossos corações, nossos corpos, até mesmo o nosso humor – em caixas organizadas, para nos reduzir a estereótipos antiquados.  De repente, eu vejo que muitas das pessoas que pensei estarem lutando ao meu lado – pessoas que orgulhosamente se alinham a pautas progressistas e apóiam impetuosamente a necessidade humana de autodeterminação – estão comprando a ideia de que pequenas diferenças entre cérebros de homens e mulheres levam a alterações significativas de comportamento, e que algum tipo de destino biológico de acordo com o gênero está codificado no nosso DNA.

Esse é o tipo de absurdo que foi usado para reprimir mulheres por séculos. Mas o desejo em apoiar pessoas como a Sra. Jenner e sua jornada para encontrar seu “verdadeiro eu” tem estranhamente trazido esse discurso de volta.

Pessoas que não viveram a vida inteira como mulheres, seja a Sra Jenner ou o Sr Summers, não deveriam nos definir. Nos definir, aliás, é algo que os homens têm feito há tempo demais. E por mais que eu reconheça e endosse o direito dos homens de jogar fora a máscara da masculinidade, eles não podem reclamar sua dignidade como pessoas transgeneras atropelando a minha dignidade como mulher.

A verdade deles não é a minha verdade. Suas identidades femininas não são a minha identidade de mulher. Eles não percorreram o mundo como mulheres e nem foram moldados por esses estereótipos. Eles não sofreram com homens falando com seus peitos durante reuniões de negócios, ou acordaram, depois de transar, aterrorizados por talvez terem esquecido de tomar o anticoncepcional no dia anterior. Eles não tiveram de lidar com a sua menstruação vindo no meio de um trem lotado, com a humilhação de descobrir que a folha de pagamento de seus parceiros de trabalho homens tem, vem  muito mais alta do que a sua, ou com o medo de serem muito fracos para repelir estupradores.

Para mim e para muitas mulheres, feministas ou não, uma das partes mais difíceis de testemunhar e apoiar no movimento pelos direitos dos transgêneros é a linguagem que um crescente número de militantes insiste em usar, as noções de feminilidade que pregam, e o seu desprezo para o fato de que ser uma mulher significa ter passado por certas experiências, suportado certas dores e apreciado certas cortesias, em uma cultura que te trata como uma mulher.

Cérebros são um bom ponto de partida porque uma coisa que a ciência aprendeu sobre eles é que, de fato, são moldados pela experiência, cultura e de outras questões. Por exemplo, a parte do cérebro que lida com a direção é maior nos taxistas de Londres, assim como é a que lida com o movimento dos dedos da mão esquerda em violinistas destros.

“Você não pode pegar um cérebro e dizer ‘este é um cérebro de menina’ ou ‘este é um cérebro de menino,’ ” como Gina Rippon, uma neurocientista da Britain’s Aston University, disse ao The Telegraph ano passado. As diferenças entre cérebros de homens e de mulheres são  causadas por um “pinga, pinga”[1] de uma sociedade patriarcal, marcada por estereótipos de gênero.

O “pinga, pinga” da história do Sr. Jenner incluiu uma boa dose de privilégio masculino que poucas mulheres poderiam sequer imaginar. Enquanto novo, “Bruiser”, como Bruce Jenner era chamado quando criança, estava sendo estimulado em direção a uma bolsa de estudos universitária para atletas; poucas mulheres poderiam ousar esperar por tamanha dádiva desde que universidades começaram a oferecer pequenos fundos para esportes femininos.

Quando Sr. Jenner procurou por um emprego para se manter durante seu treinamento nas olimpíadas de 1976, ele não teve que apelar para os miseráveis anúncios de jornal “Contrata-se Mulheres”, e pôde sobreviver com os $9.000 que recebia anualmente – diferentemente de jovens mulheres cujo salário médio era pouco mais da metade do que os homens recebiam. Alto e forte, ele nunca teve que se virar para aprender como andar em segurança pelas ruas à noite.

Essas são realidades que moldam os cérebros das mulheres.

Definindo “mulheridade” da forma como fez para a entrevistadora (Diane Sawyer), o Sr. Jenner – e muitos outros transativistas com condutas similares – ignoram essas realidades. No processo, eles minam quase um século de duras lutas e discussões onde a própria definição de  mulheridade foi dada como uma construção social que subordina mulheres. E eles menosprezam nossos esforços para mudar as circunstâncias com as quais nós crescemos.

A retórica do “Eu nasci no corpo errado”, predileta da comunidade trans, não funciona melhor e é igualmente ofensiva, pois reduz mulheres a seios e vaginas. Imagine a reação se um jovem homem branco subitamente declarasse estar preso num corpo errado e, depois de usar produtos químicos para mudar sua cor de pele e encrespar seu cabelo, esperasse ser aceito na comunidade negra.

Muitas mulheres que eu conheço, de todas as idade e raças, falam privadamente sobre o quão desrespeitosa nos soa a linguagem usada pelos transativistas para explicar a si mesmos. Depois de o Sr. Jenner ter falado sobre seu cérebro, uma amiga, achando a fala dele ultrajante, me perguntou, exasperada: “Ele está mesmo dizendo que é ruim em matemática, que chora em filmes ruins e é naturalmente programado para sentir empatia?”. Após a publicação das fotos de Jenner na Vanity Fair, Susan Ager, uma jornalista de Michigan, escreveu em sua página de facebook: “Eu apoio completamente Caitlyn Jenner, mas eu queria que ela não tivesse escolhido sair do armário como um objeto sexual”.

Na maior parte das vezes nós apenas mordemos nossas línguas e não expressamos a raiva que justificada e devidamente sentimos pelo Sr. Summers, desencorajadas pela grande desavença  que surgiu nas parcelas mais radicais, tanto no movimento das mulheres quanto no movimento trans – a respeito de eventos limitados a mulheres [nascidas com vagina],  acesso a banheiros ou sobre quem sofre a maior perseguição. A ofensa e o medo absoluto em que vivem homens e mulheres trans são bem familiares para nós, e a batalha por justiça entre grupos cruelmente marginalizados é algo que nós instintivamente queremos apoiar.

Mas com o movimento se tornando mais mainstream, está ficando cada vez mais difícil de evitar questionamentos sobre os frequentes ataques de líderes transativistas ao direito de mulheres definirem a si mesmas, seus discursos e se

us corpos. Porque, afinal, o movimento trans não está simplesmente agindo como o movimento negro, homossexual, ou feminista, que lutam pelo fim da violência, da discriminação, e para serem tratados com respeito. Está exigindo redefinir o significado de ser uma mulher.

Em janeiro de 2014, a atriz Martha Plimpton, militante por direitos abortivos, postou um tweet sobre um projeto de auxílio ao fundo de aborto do Texas chamado “A noite das mil vaginas” [A Night of a Thousand Vaginas]. De repente, ela foi inundada com críticas por ter usado a palavra “vagina”. “Dado o constante policiamento genital, você não pode esperar que pessoas trans se sintam incluídas por um evento que já no nome deixa claro estar focado em um policiado binarismo genital”, respondeu @DrJaneChi.

Quando a Sra. Plimpton explicou que continuaria utilizando o termo “vagina” – e por que ela não deveria, visto que sem a vagina não há gravidez ou aborto? – seu feed transbordou  com  uma nova onda de indignação, reportou Michelle Goldberg no The Nation. “Então você realmente está determinada a usar um termo que já foi avisada de ser segregatório e pernicioso?” perguntou um blogueiro. Sra Plimpton se tornara, para usar o neologismo transativista, uma “TERF”, que significa “feminista radical trans excludente”[2].

Em janeiro, o Projeto: Teatro [Project: Theater] da Faculdade Mount Holyoke, autoafirmada Universidade liberal de artes para mulheres, cancelou a performance da icônica peça de Eve Ensler, “Monólogos da Vagina” [3], porque ela oferecia uma “perspectiva extremamente estreita do que significa ser uma mulher”, explicou Erin Murphy, a presidente do centro acadêmico.

Deixe-me ver se entedi: a palavra “vagina” é excludente e oferece uma perspectiva extremamente limitada de “mulheridade”, então as 3,5 bilhões de nós que têm vaginas, juntamente com as pessoas trans que as querem, deveríamos chamá-las com a terminologia que os transativistas estão nos empurrando: “buraco da frente” ou “genitália interna”?

Até a palavra “mulher” está sob ataque por algumas das pessoas que reivindicam o direito de serem consideradas mulheres. As hashtags #StandWithTexasWomen [4], popularizada depois que Wendy Davis, então senadora, tentou impedir que o legislativo do Texas passasse uma tirana lei anti-aborto, e #WeTrustWomen [5], estão também sob ataque, uma vez que elas também são consideradas segregatórias.

“Direito ao aborto e justiça reprodutiva não são uma pauta das mulheres”, escreveu Emmett Stoffer, um dos muitos autoafirmados transgêneros que postaram sobre o assunto. É um “assunto de pessoas com útero”. Sr Stoffer estava se referindo à possibilidade de que uma mulher que está tomando hormônios ou passando por uma cirurgia para tornar-se homem, ou que não se identifica como mulher, ainda pode ter um útero, ficar grávida e precisar de aborto.

Por consequência, grupos pró-aborto estão sob pressão para modificar declarações de missão e excluir o termo “mulher”, como Katha Pollitt recentemente reportou no The Nation. Os que se renderam, como o New York Abortion Access Fund, agora oferecem seus serviços para “pessoas” e para “visitantes”. Fund Texas Women, que cobre os custos de viagem e hotel para quem busca aborto e não tem clínica por perto, teve seu nome recentemente modificado para “Fund Texas Choice”. “Com um nome como Fund Texas Women, nós estavamos publicamente excluindo pessoas trans que precisavam do aborto mas não são mulheres”, explica o grupo em seu website.

Universidades exclusivas para mulheres estão se desdobrando para acomodar estudantes fêmeas que se consideram homens, mas comumente não aceitam homens que vivem como mulheres. Agora essas instituições, cuja missão central é cultivar líderes mulheres, têm governo estudantil e presidentes de dormitório que se identificam como homens.

Como Ruth Padawer reportou na revista do New York Times outono passado, estudantes mulheres de Wellesley estão gradualmente substituindo a palavra “sororidade” por “irmandade” [6], e os membros da faculdade são confrontados com reclamações por parte de estudantes trans por conta de seu uso universal do pronome “ela” – embora Wellesley, com razão, se gabe de sua longa jornada como a melhor faculdade para mulheres do mundo.

O cenário que está sendo mapeado e a linguagem que vem com ele são tão impossíveis de entender quanto complicadas de equilibrar. Transativistas mais inclinados à teoria negam que existam paradoxos aqui, e que qualquer um que ache que há, está agarrado a uma visão de gênero binária irremediavelmente antiquada. Ainda assim, Sra. Jenner e Sra Manning, para mencionar apenas duas, esperam ser chamadas de mulheres, mesmo quando clínicas de aborto estão sendo pressionadas a abandonar esse termo por ser discriminatório. Deste modo, seriam aqueles que transicionaram de homens para mulheres as únicas mulheres legítimas?

Mulheres como eu não estão perdidas em falsos paradoxos; estávamos esmagando as visões binárias de masculinidade e feminilidade bem antes de muitos americanos terem sequer ouvido a palavra “transgênero” ou usado a palavra “binário” como adjetivo. E porque nós fizemos e continuamos a fazer isso, milhares de mulheres, uma vez confinadas em empregos como secretárias, esteticistas ou aeromoças, passaram a poder trabalhar como soldadoras, mecânicas e pilotos. É por isso que nossas filhas brincam com trens e caminhões tanto quanto com bonecas, e é por isso que a maioria de nós se sente livre para usar saias e saltos na terça e na sexta, jeans.

De fato, é difícil acreditar que esse suado afrouxamento das restrições de gênero para mulheres não seja ao menos uma explicação parcial do porquê de três vezes mais cirurgias de redefinição de sexo serem feitas em homens. Homens são, comparativamente falando, mais ligados a esteriótipos de gênero, acabando até sufocados por eles.

A luta para passar por cima desses estereótipos está longe do seu fim, e transativistas poderiam ser aliados naturais de mulheres, daqui pra frente. Enquanto os humanos produzirem cromossomos X e Y que levam ao desenvolvimento de pênis e vaginas, quase todos nós teremos gêneros assinalados ao nascer. Mas o que fazemos com esses gêneros – os papéis que atribuímos a nós mesmos e aos outros, baseados neles – é quase inteiramente mutável.

Se essa é a mensagem final da comunidade trans, nós os receberemos de braços abertos na luta de criar espaços para todo mundo se expressar, seja ele, ela, ou, na linguagem neutra, “elx”, sem sermos coagidos por expectativas relativas aos gêneros. Mas minar a identidade das mulheres, silenciar, apagar ou renomear nossas experiências não são coisas necessárias nessa luta.

Bruce Jenner disse à Ms. Sawyer que o que mais ansiava em sua transição era a chance de pintar as unhas e mantê-las pintadas, não em um instante fugidio, mas até que elas descascassem. Eu também quero isso para o Bruce, agora Caitlyn. Mas eu também quero lembrar: esmalte de unha não faz uma mulher. >>

[1] No original “drip, drip, drip”, onomatopeia de pingos indicando algo que ocorre lenta e gradualmente, no caso o efeito contínuo de um ambiente patriarcal que impõe gênero.

[2] No original “trans exclusionary radical feminism”. Tradução literal.

[3] No original “The vagina monologues”. Tradução literal.

[4] Significa “Fique com as mulheres do Texas”, Apóie as mulheres do Texas”.

[5] Significa “Nós confiamos em mulheres”.

[6] No original “siblinghood”. Traduzido como irmandade, mas estrito senso, os termos não são exatamente equivalentes. Há o termo “brotherhood”, que significa irmandade (entre homens), em oposição a sisterhood, que é sororidade (entre mulheres). “Siblinghood” vem de “sibling”, que significa irmão ou irmã, servindo para ambos os sexos.

P.S: o texto foi traduzido em parte por mim, em parte por M., e revisado por P. A., F., M, P.J.; agradeço a ajuda. ❤ 

“O que nos faz mulheres?”, de Elinor Burkett

“Não, feminismo não é sobre escolha”, de Meagan Tyler

O original está aqui.

<< Feminismo voltou à moda. Com o impulso à reivindicação da “palavra com f”, figuras públicas, corporações e boa parte da mídia mainstream incutiram uma fortemente inquestionável versão de feminismo na consciência popular. É um feminismo que nunca menciona a libertação da mulher, optando, pelo contrário, por uma celebração da “escolha”.

Leia quase qualquer artigo online sobre feminismo e os comentários logo irão evoluir para um debate sobre escolha. Não importa qual seja o tema, pessoas rapidamente o reformulam como uma questão de empoderamento da mulher e direito de escolha. Tem uma nítida diferença entre isso e falar sobre as maiores estruturas de poder e normas sociais que podam as mulheres, de diferentes formas, em todo o mundo.

Foi um mês importante para o “feminismo de escolhas”. Em março passado, a revista de moda Vogue lançou o video “Minha Escolha” [my choice] na Índia, como parte de sua campanha de empodaramento a qual, literalmente, reduziu o empoderamento das mulheres a uma série de escolhas.

O vídeo tornou-se viral e, como a correspondente na índia Gunjeet Sra notou, a hipocrisia de uma “industria baseada na fetichização, objetificação e reforçamento de padrões sexistas de beleza para as mulheres”, supostamente promovendo o feminismo, ficou em grande parte despercebida.

Essa marca liberal do ‘feminismo de escolha” foi então seguida pelo seu lógico – e absurdo – ato final, quando um candidato liberal democrata da próxima eleição do Reino Unido tentou explicar as gravações de quando teve um lap dance [1] num clube de strip. Aparentemente, foi tudo parte de sua missão feminista de apoiar o “empoderamento de mulheres para fazerem escolhas legais, sem julgar quais escolhas legais elas fazem”.

Até a Playboy recentemente decidiu meter o bedelho nos pontos mais delicados da teoria feminista, e saiu em favor do direito da mulher de ser sujeitada ao olhar pornográfico. O qual, convenientemente, cabe muito bem em seus próprios planos de negócios, é claro.

São incidentes como esse, bem como banais discussões sobre se a Beyoncé é ou não feminista, ou se políticos homens deveriam vestir camisetas de “Essa é a aparência de uma feminista” [This is What a Feminist Looks Like], que inspiraram uma nova coleção de escritos feministas, Falácia da Liberdade: os Limites do liberal feminismo [2].

Nesse livro, que eu co-editei, 20 de nós tratam de diferentes tópicos que tornaram-se parte da paisagem do “feminismo de escolha”: de pornografia e porstituição à mutilação genital feminina; de revistas para mulheres e casamento à violência sexual. Embora vindo de um leque de diferentes perspectivas, todas nós criticamos a noção de que “escolha” deveria ser a referência última de liberdade da mulher.

Muitas de nós argumentam que o surgimento desse feminismo pop é, na verdade, mais traiçoeiro do que zombar do vazio fim do espectro de “eu escolho minha escolha” pode sugerir.

Primeiro: os argumentos acerca da escolha são fundamentalmente falhos porque assumem um nível de incontestável liberdade para as mulheres que simplesmente não existe. Sim, nós fazemos escolhas, mas elas são moldadas e condicionadas pelas desiguais condições em que vivemos. Só faria sentido celebrar a escolha sem críticas se vivessemos num mundo pós-patriarcal.

Segundo, a ideia de que mais escolhas automaticamente significam mais liberdade é uma falsidade. Isso é essencialmente vender neoliberalismo com um misto de feminismo. Sim, mulheres agora podem trabalhar ou ficar em casa se elas tiverem filhos, por exemplo, mas essa “escolha” é bastante oca quando a educação das crianças continua sendo considerada “trabalho de mulher”, quando não há suporte estatal suficiente para cuidar das crianças, ou quando mulheres que não têm filhos são consideradas egoístas.

Terceiro, o foco nas escolhas das mulheres como a totalidade e o fim do feminismo resultou em uma perversa culpabilização das vítimas e em uma distração dos reais problemas que as mulheres ainda encaram. Se você não está feliz com a forma como as coisas são, não culpe a misoginia e o sexismo, a diferença entre os salários, papeis de generos enraizados, a falta de representação feminina nos conselhos ou no parlamento, ou uma epidêmica violência contra mulheres. Culpe a si mesma. Você obviamente fez a escolha errada.

Como a socióloga Natalia Jovanovski pontua em seu capítulo do Falácia da Liberdade, não é surpreendente que esse tipo de feminismo liberal tenha ganhado destaque. Ao privilegiar escolhas individuais acima de tudo, ele não desafia o status quo.

Não requer mudança social e efetivamente mina chamados para ação social. Basicamente, nem pede nada de você, nem dá nada em troca.

Ao invés de resistência, nós agora temos atividades que antes eram tomadas como arquétipos do status de subordinação das mulheres, tratadas como libertadoras escolhas pessoais.  Perseguição sexual tem sido tratada como brincadeira inofensiva que as mulheres podem curtir. Casamento é ressignificado como um love-in [3] pro-feminista.

Labioplastia [4] é vista como um útil aperfeiçoamento cosmético. Pornografia é transformada em emancipação sexual. Objetificação é o novo empoderamento.

Ao invés de falar de um ideal de futuro mais igualitário, somos deixadas com uma visão individualista, fúteis discussões sobre se tal mulher é ou não uma “má feminista”. Ou o que a jornalista Sarah Ditum chamou de jogo do “você pode ser uma feminista e…”. Como se a questão real do progresso da mulher fosse saber se podemos ou não nos manter fieis a um lendário ideal feminista.

Tão minunciosa é a individualização do “feminismo de escolha” que quando mulheres criticam indústrias particulares, instituições e constructos sociais, elas recorrentemente se deparam com acusações de atacar as mulheres que estão dentro delas. A importância de uma análise a nível estrutural foi quase completamente perdida na compreensão popular de feminismo.

Para fins de comparação, soaria bem ridícula sugerir que, por criticar o capitalismo, um Marxista estaria atacando o proletariado. Seria igualmente estranho sugerir que aqueles que criticam a Big Pharma odeiam as pessoas que trabalham em industrias farmaceuticas. Ou que aqueles que questionam nossa dependência cultural em fast-food o fazem de frente para as crianças no balcão do McDonalds.

Por fim, a promoção da “escolha” – e o mito de uma já conquistada igualdade – tem refreado a nossa capacidade de desafiar as próprias instituições que entravam as mulheres. Mas a luta não chegou ao fim.

Muitas mulheres estão reafirmando que o feminismo é um movimento social necessário para a igualdade e libertação de todas as mulheres, não mera retórica sobre a escolha de algumas. >>

[1] Lap Dance é “é uma dança erótica, comum em clubes de striptease, onde a(o) dançarina(o) move-se sensualmente com ou sem roupa”. É considerado por muitos mais uma forma de prostituição.
[2] Freedom Fallacy: The Limits of Liberal Feminism foi lançado na austrália em Março. Está também disponível internacionalmente.
[3] Love in é “uma reunião ou festa na qual as pessoas são incentivadas a expressar sentimentos de amizade e atração física, associada com os hippies da década de 1960”. Não achei palavra em português.
[4] Labioplastia é um procedimento cirúrgico para alterar os pequenos e grandes lábios, as dobras de pele ao redor da vulva.

P.S.: Esse texto foi traduzido por mim, mas ainda não foi revisado. Se alguém tiver alguma observação a fazer ou quiser revisar, pode mandar nos comentários que eu atualizo o post.

“Não, feminismo não é sobre escolha”, de Meagan Tyler

“A questão transracial: Rachel Dolezal e o privilégio da manipulação racial”, de Lisa Marie Rollins

O original está aqui.

<< “A mercantilização da diversidade tem sido tão bem sucedida porque é oferecida como um novo prazer, mais intenso, mais satisfatório que as formas normais de se comportar e sentir. Dentro dessa cultura mercantil, a etnia torna-se pimenta, tempero que pode animar o maçante prato que é a cultura branca em voga.” Bell Hooks – Eating the other: Desire and Resistance

“Eles amam nossos corpos, mas não nos amam.”‪#‎BlackWomanLivesMatter‬ ‪#‎SayHerName‬

“Todo mundo quer ser um ‘nego’, mas ninguém quer ser um ‘nego’.” Paul Mooney.

Eu estava me esforçando para ignorar essa história. Não foi até um dos meus companheiros adotados alertar-me do fato de que o Twitter (o qual uso religiosamente, mas evitei nos últimos dois dias) começou a utilizar o termo “Transracial” para referir-se a Rachel Dolezal, uma mulher branca que foi exposta por esconder sua brancura e viver como uma mulher negra, que eu prestei atenção. Descobri que o Twitter também começara uma hashtag, uma provocação sarcástica, “AVidadeTransraciaisImporta. Então eu li um artigo que argumentava que “identidade transracial não é uma coisa”. Hum.Não.

Para aqueles que não sabem, e claramente são vários de vocês, o termo transracial é usado em pesquisas academicas, escrita criativa e trabalhos culturais, para denominar uma particular “forma de ser” para pessoas adotadas por [famílias de] outras raças. Também descreve um tipo de unidde familiar/tipo de paternidade. Em outras palavras, isso É uma “coisa”. É desalentador e desconcertante ver esse termo sendo usado erroneamente como se isso não envolvesse toda uma população de negros, nativos e asiáticos pelo globo. Pelos últimos 35 anos, eu me considerei uma adotada transracial. O “trans” no “transracial” pra mim nunca significou que minha raça mudou. Significou que eu sou uma garota negra multiracial, adotada em uma família branca. Significou que eu fui tomada sem meu consentimento de uma casa, meu lugar de origem, e colocada em uma outra família, outra cultura, outra raça, que não me pertence. Significou que eu tive que aprender como equilibrar minha negritude e minha feminilidade negra, dentro de um muitas vezes racista, religioso, violento e rígido mundo branco. Significou viver numa casa e comunidade que simultaneamente me apagava, racializava e tokenizava. Isso me deu linguagem para articular o que estava me acontecendo. Mas você sabe o que isso não fez? Mudar a minha raça. E mesmo com os “privilégios” da brancura, mesmo com a educação, a vida de classe média, acampamentos, pescaria, caçada… Isso nunca me tornou branca.
Dr. John Raible investigou como membros de famílias adotivas transraciais brancas podem tornar-se “transracializados’ pela experiência de ter pessoas negras e asiáticas em suas casas. Em seu estudo, ele entrevista irmãos de pessoas negras adotadas e mostra quantos irmãos de transraciais adotados que podem nunca ter pensado sobre raça ou racismo são impactados. Ele afirma que “o indivíduo pode transcender o mito do daltonismo¹ e entrar num mais profundo entendimento do papel da raça e da discriminação baseada na consciência de cor em nossa sociedade.”

Mas nem isso – a experiência de ser “transracializado” e superar a mitologia de daltonismo que os Estados Unidos ainda anseia que nós aceitemos – muda a raça dos irmãos. Isso nem sequer os encoraja a considerar mudar sua raça. De fato, argumenta-se que eles deveriam abraçar o potencial de crescer com a sua proximidade ao racismo e violência racial. Argumenta-se que eles podem ser um tipo diferente de pessoa branca, que pode operar como um aliado às pessoas de cor² de maneira real e atenciosa. É claro que esse tipo de transformação não é do tipo que acontece frequentemente. Mais comumente que não, mães, pais e irmãos brancos falsamente vivem através das “culturas reais” de seus adotados filhos de cor. Mais comumente que não, eles ignoram como a apropriação e fetichização da cultura não tem nada a ver com um vitalício engajamento em ser um ativo aliado anti-racista.

Os debates acerca do superficial uso de “transracial” para descrever a trapaça da Sra. Dolezal (e vamos ser claros que ela mentiu, aproveitou-se da mentira, ganhou uma posição privilegiada e não planeja parar de se chamar de Negra.) foram particularmente engatilhadores³ pra mim. Sou uma mulher que entre participar de cursos e lecionar teoria feminista negra encontrou conforto, cura e inspiração nesses espaços sagrados. Eu sou uma mulher negra que encontrou seu caminho de volta à comunidade de onde foi tirada. Comunidade essa que foi a primeira a me dizer que eu sou bonita, quando tudo o que eu experienciara fora a rejeição e vergonha por minha cor de pele e tipo de cabelo. Como uma mulher negra que descobriu essa diáspora negra, celebrei e abracei minha tão particular hibridade transracial — e estou furiosa pela expropriação da minha identidade e pela muito real glorificação da Sra. Dolezal.

Na condição de pessoa multiracial negra e de adotada transracial, eu não tenho problema com a mistura racial e cultural, não com a forma como raça e identidade racial tem mudado em nosso mundo. Eu acredito na destruição de noções de “autenticidade”. Eu não cresci num lar com as ideias comuns da mídia sobre o que é ser autenticamente Negro. É porque eu não tive acesso à cultura negra ou filipina, mitologias, comida e espiritualidade, que eu não sou negra nem filipina? Não. Avise isso à autêntica polícia, falando com a minha eu de 14 anos, sentada na frente da minha casa com meu namorado, quando os policiais chegaram em torno de mim me perguntando o que eu estava fazendo lá. Mas aqui – nós estamos falando de raça, não de cultura, não é? (ironia?)

A diferença crucial aqui é que eu não tive e continuo sem ter escolha a respeito da minha negritude. Eu não posso esconder minha pele ou me tornar invisível quando estou protestando contra o terror policial ou criando arte para outras mulheres pretas com a pele como a minha. Eu não posso manipular o que é raça para o meu bel prazer. Sra. Dolezal é uma mulher branca que fez escolhar, que usou e continua usando cada milímetro de seu provilégio de ser branca para manter o poder e o status de elite que ela acumulou de sua trapaça. Tal uso do privilégio de ser branca, em seu caso, não é nada diferente dos pais adotivos transraciais que adotam crianças bi-raciais porque eles querem que essas crianças identifiquem-se com seu “lado branco”. Esses pais ignoram completamente que o jeito que eles querem que a raça funcione não é verdadeiramente como ela age no mundo. Eles estão completamente assegurados de seu poder de direcionar e mudar a raça e os significados de raça em seu próprio capricho branco. Essa manipulação é o que a Sra. Dolezal fez. Essa manipulação de raça não é nada diferente do que os supremacistas brancos fizeram nos primeiros dias de nosso país, movendo as linhas de raça para trás e para frente quando lhes era conveniente, usando a linguagem da lei, mesmo ao custo da vida de negros, asiáticos e nativos.

Quero deixar claro que isso é complicado. Posso especular que a vida da Sra. Dolezal em uma família adotiva transracial e a presença de seus irmãos e irmãs negros impactou a forma como ela pensa em raça. Mas essa complexidade é onde o perigo mora. O sistema global de adoção transracial é, ele mesmo, frequentemente o lugar onde pessoas brancas desejam proximidade com “corpos de cor”, com seu “exótico”, seus “naturais ritmos e culturas” fazem o fetiche e os sonhos tornarem-se reais. E será que a Sra. Dolezal não adotou seu irmão negro e o reivindicou como filho para ganhar autenticidade? Onde isso se difere?

Existem famílias que, depois de adotarem transversalmente à raça passam a chamar-se “Chineses Americanos” depois de adotarem uma garota da china. Hum. Não. Não se torna uma família chinesa americana simplesmente porque vocês têm tal modelo de adoção e têm algum tipo de crédito com um corpo de cor chinês. Vocês são uma família branca com uma criança de cor, são uma família multiracial, mas, não importa, continuam sendo brancos. Vocês têm a responsabilidade com seu filho de serem abertos, honestos e respeitosos com quais experiencias são suas e quais experiências são deles. Vocês têm responsabilidade de não mentir sobre assuntos sobre a vida real ou sobre a morte, que seu filho adotivo vai ter que encarar.

Afinal de contas, nisso é onde eu critico a Sra Dolezal. Eu não me importo com o que ela fez “pela comunidade”. Estou enfurecida com aqueles de vocês (e olho diretamente para a NAACP, por não demitir essa mulher) que estão me pedindo para ser grata a uma mulher BRANCA que “fez vários trabalhos em sua comunidade negra”. Essa linguagem é uma linha contra a qual adotados transraciais tiveram que obliterar e resistir anos atrás. Nós ouvimos constantemente que deveríamos ser gratos por não termos crescido em um orfanato ou nos tornado prostitutas, porque nossas próprias famílias não eram boas o suficiente. Nossas mães negras ou de terceiro mundo não eram boas o suficiente. Esse discurso de gratidão é parte do pensamento de supremacia branca, é um tipo de violência linguistica que nos pede para silenciar nossas próprias experiencias, para nos apagar. Pede para deixar uma pessoa branca me dizer como deveria agir, sentir, me comportar e até o que a negritude é. Mais uma mulher branca me dizendo o que a negritude diasporica é, o que o ser mulher negra é? Acho que não.

Então, sim. ‪#‎TransracialLivesMatter‬, mas em muito mais maneiras que você imagina. >>

¹No original, “color-blindness”. Tradução literal. Não conheço nenhum termo similar no português.
²No original, “people of color”. Tradução literal. O sentido deste termo é de pessoas negras, asiáticas, e demais minorias raciais.
³No original, “triggering”. De “trigger”, ou “gatilho”. Expressão que significa que determinada atitude ou forma de falar de outrém gera um sofrimento relacionado à recordação de violência ou de opressão sofrida. >>

“A questão transracial: Rachel Dolezal e o privilégio da manipulação racial”, de Lisa Marie Rollins